O Fundador da Doutrina do Santo Daime:
Mestre Raimundo Irineu Serra
Relato do Sr. Jairo da Silva Carioca
1960 - O RECEBIMENTO DOS HINOS NOVOS E AS ÚLTIMAS MEDIDAS DO GRANDE MESTRE
A SEDE OFICIAL DOS TRABALHOS
Em 1960 Mestre Irineu volta a dar passos na institucionalização de seus trabalhos espirituais. O número elevado de novos seguidores determinava a construção imediata da primeira sede oficial da Doutrina. A madeira mais uma vez foi retirada de suas próprias terras. O projeto era simples, apresentava uma construção em quatro águas, idêntica a do Alto Santo, com varandas circulares e cobertura de cavaco, dando total originalidade ao templo sede.
Acompanhado de seus seguidores, iniciou as obras com mutirão, onde reunia grande parte da irmandade, formada geralmente por aqueles que moravam nas proximidades do Alto Santo. "Ele terminava aqueles mutirões e chamava aqueles que ele sabia que não podia lhe dar um dia de serviço e pagava. Tinha consciência de quem podia lhe ajudar e de quem ele podia ajudar", relata dona Peregrina Serra.
Em pouco tempo as bases estavam erguidas com barrotes fortes e altos de madeira em lei, tirados pela força de trabalho do Mestre Irineu que já tinha 68 anos de idade. Projetada na beira de um açude, as varandas circulares separavam os lados masculino e feminino. A construção do templo marcava uma nova etapa na vida dos precursores desta grande missão. A inauguração foi mais uma vez marcada pela data de São João Batista, com fardamento branco e o cântico e o baile do hinário o Cruzeiro do Mestre Irineu, durante toda a noite de 23 para 24 de junho de 1960.
A AMIZADE COM JOSÉ GUIMARD DOS SANTOS
Politicamente, o Mestre ampliava suas relações. Admirador da política adotada por José Guiomard dos Santos, Mestre Irineu chegou a fazer do Alto Santo, um dos primeiros diretórios da ARENA - Aliança Renovadora Nacional. Neste período, "Esse Guiomard dos Santos vinha aqui, passava dias aqui em casa conversando com ele. Uma vez ele chegou o velho estava no roçado. Aí ele mandou chamar. Disse: 'ora Irineu, eu venho aqui passar o dia contigo e tu estás no roçado. Acaba com isso, tu não é para trabalhar assim'. Aí o velho respondeu: 'eu tenho que trabalhar porque não tenho quem me dê nada'. O Guiomard então disse: 'eu vou te aposentar como veterano, tu queres?' Mas ele respondeu: 'não, eu não quero porque não sei mentir'", relata madrinha Peregrina. "Eu vi o Mestre pela primeira vez em 1950, era um comício de José Guiomard dos Santos, aí por esse meio de mundo. Ele estava lá, dona Lídia e o Mestre Irineu", comenta o dr. Manoel Queiroz.
Com esta sinceridade Mestre Irineu tinha a confiança e o respeito das maiores autoridades políticas do Estado naquela época. Além de sua amizade com José Guiomard dos Santos, Mestre Irineu gozava de bons conceitos com Valério Magalhães, Jorge Kalume, Vanderley Dantas e o Cel. Fonteneli de Castro. "Irineu conhecia os efeitos da adversidade. Continuou, ainda mais disposto, cultivando a semente a qual de forma lenta e gradativa, foi germinando para tornar-se árvores com sua sombra amiga, em especial nos momentos caniculares da vida!", descreveu Jorge Kalume.
A ESCOLA CRUZEIRO
Com a construção da sede oficial dos trabalhos, foi possível a irmandade do Alto Santo implantar a Escola Cruzeiro, que recebeu esse nome por funcionar inicialmente no salão de baile da sede. A iniciativa foi uma idéia conjunta dos professores João Rodrigues Facundes, dona Percília Matos e Francisco Matos.
Mestre Irineu apoiou a proposta, que trazia automaticamente maior qualificação aos moradores da região. A escola passou a funcionar com ensino de 1ª à 4ª série.
Criava-se também uma nova classe social no Alto Santo. Além de pequenos agricultores e seringueiros, passavam a existir os funcionários públicos. Todos os filhos das famílias que moravam próximo ao Alto Santo passaram a estudar na escola. Um dia, Júlio Carioca trabalhava como inspetor, ordenou a um dos filhos de Francisco Grangeiro, chamado Valcírio, que voltasse para casa pelo fato de ter chegado atrasado no horário estabelecido para o início das aulas. Cabisbaixo e com vergonha de voltar para casa, quando o pequeno Valcírio passava de volta no terreiro do Mestre, encontrou-se com ele que perguntou-lhe porque voltava da escola antes do horário normal. Valcírio então contou a história. Mestre Irineu em tom bastante afirmado disse: "volte e diga para o sr. Júlio que eu não ensino assim, ouviu bem!?, conta Júlio Carioca. O garoto então voltou, contou as ordens do Mestre e adentrou para a escola. "Para mim ele mostrava que certos autoritarismos não resolvem e nem servem para a educação de ninguém. Nunca mais repeti aquele ato", acrescenta Julio Carioca.
PARCERIA COM O CÍRCULO ESOTÉRICO DA COMUNHÃO DO PENSAMENTO
Por esta época, já se aproximando de 1963, Mestre Irineu, segundo os mais antigos, procurava uma doutrina que fosse semelhante à sua. Nesta procura, filiou-se à organização Rosa Cruz, de onde recebeu o diploma de Honra ao Mérito, e mais tarde filiou-se também ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, trazido ao seu conhecimento através do senhor Francisco Ferreira. "Ele começou a tomar Daime por aqui, e tal, viajando muito para São Paulo, e por lá ele conheceu, achou muito bonito e trouxe. O Mestre Irineu aprovou."
Na verdade, vamos observar que as filiações de Mestre Irineu tanto na Rosa Cruz quanto no Círculo Esotérico tinham como objetivo a busca de respaldo para o consumo de sua bebida. Afinal, desde a criação do primeiro centro da ayahuasca, em 1917 no município de Brasiléia, organizado pelos irmãos Antônio Costa e André Costa, que o Daime, como foi batizado em 1931 pelo Mestre Irineu, sofre com perseguições das religiões tradicionais e de alguns seguimentos da sociedade, que por falta de conhecimento dos reais fundamentos da Doutrina caracterizam-na como sendo um veículo nocivo ao homem. Existia a necessidade, portanto, do Mestre Irineu legalizar esses fundamentos, o pensamento educativo e religioso constituído em sua missão.
Nessa parceria com o Círculo Esotérico, a história registrou momentos de grande intensidade na evolução espiritual do grupo liderado pelo Mestre Irineu. Com sua filiação, os seguidores mais próximos também se filiaram. "O Círculo foi muito bem agraciado pelo Mestre que aconselhou que todos nós nos filiássemos, quem sabia ler se filiava e quem não sabia ler se filiava também", comenta o sr. Francisco Grangeiro.
Francisco Ferreira, que coordenava a ligação dos trabalhos com a sede do Círculo em São Paulo, passou a realizar encontros todas as segundas-feiras e todos os dias 27 de cada mês, onde reunia maior número de seguidores em sessões semelhantes às de concentração. "Tomávamos Daime e nos concentrávamos por uma hora e meia. Quando vinha chegando o afluído, compadre Luiz Mendes lia a oração de Consagração do Aposento e em seguida, executávamos os cânticos dos hinos espirituais e esotéricos. Aquilo mexia com o coração da gente. Fora da sessão, nas reuniões de todas as segundas-feiras, líamos as revistas do pensamento, as orações do iniciado, enfim, elevávamos o nosso pensamento como determinava a Ordem", relata dona Lourdes Carioca.
"Nessa época foi quando dei meus primeiros passos na oratória. Pois é, com um certo tempo de concentração, lia a Consagração do Aposento e ouvíamos com muita maestria, comadre Lourdes cantar as canções do círculo", comenta Luiz Mendes, que tornou-se o primeiro orador oficial da missão do Mestre Irineu. "As vibrações de harmonia, amor, verdade e justiça, constantemente invocadas pela comunhão dos trabalhos esotéricos, iluminavam os pensamentos de unificação objetivados pelo Mestre", acrescenta o sr. Luiz Mendes. Um dos hinos que eram cantados nas sessões de concentração do Círculo Esotérico dizia:
Vibremos todos pelo nosso lema
Realizando a feliz fraternidade
Formemos uma egrégora suprema
Capaz de iluminar a humanidade
Côro: Das nossas almas ávidas de luz
Descerremos as portas sem temor
Adonai para o Eterno e bem conduz
Dos obreiros da Seara do Senhor
Pelo Sol da Harmonia iluminados
Regidos pelo amor universal
No templo da verdade consolados
Formemos com justiça nosso ideal
Tal como em prece simples e eloqüente
A luz dos pensamentos mais profundos
Sejamos saturados fortemente
Pela essência das flores e dos mundos
Nas belezas que o lema sintetiza
Muito além desse bárbaro cilício
Busquemos esta luz que simboliza
As cristalizações do sacrifício
Outro hino que não poderíamos deixar de registrar é o hino espiritualista, sua letra sintetiza os valores das duas doutrinas:
Somos filhos de Brahama Supremo
Que a terra criou-nos para o bem
Do universo infinito e extremo
Seu poder nos dá força também
Coro: Exultemos de alegria
Da luta ao entrar na liça
Invoquemos harmonia
Amor, verdade e justiça
Fraternal sentimentos nos unem
Transformados de sacro fervor
Um sublime dever nos reúne
Neste templo mansão do Senhor
Quando a alma s' envola liberta
Da ilusão que na vida seduz
Elevada surpresa desperta
No seu reino de Paz e de Luz
Entretanto, "entre os documentos orais e escritos acerca da influência do Círculo e de sua importância para a formação intelectual e religiosa de Mestre Irineu, um ganha destaque, por mostrar claramente a relação entre o Círculo e o CICLU. Trata-se de uma autorização assinada por Leôncio Gomes da Silva, datada de 10 de junho de 1974. Nessa autorização, Leôncio escreve que o CICLU "...antes denominado Centro de Irradiação Mental - Tatwa Luz Divina, autoriza a Fraternidade Luz no Caminho, antes denominada Centro Humilde Rui Barbosa e depois Centro Eclético de Correntes da Luz Universal a funcionar de acordo com a orientação do trabalho do CICLU..."
A denominação de Tatwa para o CICLU não deixa dúvida quanto a sua relação ou tentativa de relação organizacional com o Círculo, pois este é o nome dos núcleos dessa organização. A carta refere-se ao período em que Mestre Irineu tentou legitimar o uso do ritual de ayahuasca no âmbito da esfera organizacional do Círculo (tese da antropóloga Oneide/RO). Essa ligação, porém, sofre um racha quando a presidente do Círculo Esotérico, dona Matilde Preiswerk Cândido, soube em São Paulo da ligação do Daime nos trabalhos do Círculo. A resposta do Mestre, foi imediata: "Se não querem o meu Daime, também não me querem, eu sou o Daime e o Daime sou eu", disse.
Na tentativa dessa legitimação, Mestre Irineu teria sugerido à direção do Círculo em São Paulo o nome de Centro Livre para a organização de seu grupo. O nome não foi aceito pela direção que enviou como resposta: Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, o qual foi aprovado pelo Mestre Irineu. "O primeiro nome daqui foi Centro Livre, mas o Mestre aceitou a escolha da direção do Círculo e assim ficou", relata Francisco Grangeiro Filho.
E não se resumiram apenas nesses fatos a ligação da Doutrina com o Círculo Esotérico. Foi dessa relação que Mestre Irineu determinou os dias 15 e 30, como datas oficiais das sessões de concentração, a partir de 1963, quando foi oficializado a data de 27 de cada mês para a realização das sessões esotéricas. Do Círculo, também Mestre Irineu extraiu os princípios de Harmonia, Amor, Verdade e Justiça, acrescidos de Paz, Amor e Silêncio, palavras fundamentadas em sua Missão.
Sabe-se também que foi através das leituras das revistas do Círculo, enviadas mensalmente para o Mestre Irineu e seu grupo de filiados, que este desenvolveu sua leitura. Diz o sr. Sebastião Jaccoud que "ele próprio contava que certo dia saiu do Alto Santo e foi até a cidade, Rio Branco, que costumava visitar poucas vezes durante o ano. Numa dessas ocasiões, alguém perguntou se sabia ler e ele respondeu que sim. Caiu em reflexão a respeito da resposta e concluía que não havia dito a verdade. Decidiu a ler e escrever. Tornou-se ávido leitor das obras do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento". Dona Percilia Matos, também teve papel fundamental no aprendizado de leitura do Mestre. Era ela quem ajudava nas lições que lhe levaram a ler e escrever.
A COMISSÃO DE CURA
É das bases do Círculo Esotérico que Mestre Irineu organizou também seus trabalhos de cura. Como já vimos, até esta data os trabalhos de cura eram realizados nas quartas-feiras. Sempre que um irmão estava necessitado, Mestre Irineu reunia seus membros e trabalhava a cura da pessoa em trabalhos que poderiam se repetir de três a até nove sessões.
Com a organização desses trabalhos, Mestre Irineu criou uma Comissão de Cura - que seria responsável pelo acompanhamento dos irmãos enfermos. Nove pessoas, integrantes do Estado Maior, formavam essa comissão:
1 - Madrinha Peregrina
2 - Percília Matos
3 - Lourdes Carioca
4 - Zulmira Gomes
5 - Maria Gomes
6 - José das Neves
7 - Francisco Martins
8 - Francisco Grangeiro
9 - Júlio Chaves Carioca
Comentam esses seguidores antigos que os objetivos de Mestre Irineu ao fundamentar essa equipe eram mais amplos. Um dia o Mestre comentou com Júlio Carioca: "Quero, Júlio, concentrar-me aqui (referindo-se ao Alto Santo) para trabalhar em benefício de uma pessoa que esteja doente no Japão", testemunha Júlio Carioca. "Em duas ocasiões chegamos a nos reunir com esse objetivo, acrescenta dona Lourdes Carioca. A primeira foi quando houve um incêndio grande nas matas do Maranhão que ninguém conseguia apagar. O Mestre nos reuniu, tomamos Daime e fomos bater lá. Na miração, via ele na frente e nós com uma porção de vassourinhas ajudando a apagar o fogo; outra vez foi na Segunda Guerra Mundial, naquela época eu não estava ainda na sessão, mas o Mestre me falou que também se concentrou pedindo paz para o mundo todo", comentou dona Lourdes Carioca.
"O povo acha por aí, que quando o Mestre diz: 'Doutrinar o mundo inteiro', é para sair abrindo centro e criando mestre em tudo quanto é Estado e País. Mas ele referia-se a esse trabalho de doutrinação com o mundo todo de uma maneira bem responsável, não era da forma com está", comenta o sr. Pedro Matos, esposo de dona Percília Matos. "Doutrinar o mundo inteiro, mas daqui do lugar de onde ele está", acrescenta.
Ainda em organização ao processo de cura, Mestre Irineu ordenava a realização do Trabalho de Abertura de Mesa - que consiste no afastamento de maus espíritos de pessoas mal assistidas espiritualmente. Esse trabalho foi dedicado a dona Percília Matos, e consiste na leitura de uma oração. "Essa oração ele tirou do Círculo Esotérico, determinou que fosse lida no ritual simples que cura as doenças de espíritos mal assistidos, é muito sério", comenta dona Percilia Matos. Além dessas orações, outras também foram aproveitadas pelo Mestre no seguimento de seus rituais, porém, no seu aperfeiçoamento como Mestre dos Mestres, Irineu Serra recebeu chamados e orações que não encontramos em nenhum tipo de livros. "Uma delas que podemos revelar, se refere a nossa proteção quando saímos de casa para trabalhar ou fazer qualquer outra atividade, o Mestre ensinou dizermos fazendo o sinal da cruz, ao sair no portão: 'O Divino Pai Eterno + com vosso Divino Poder + os bons espíritos me acompanhe + para tudo eu poder vencer", ensina dona Lourdes Carioca.
OS DECRETOS DE SERVIÇOS
A construção dos primeiros Decretos de Serviço também foram estimulados por essa parceria entre a Doutrina e o Círculo Esotérico. Vamos observar na linguagem desse decreto, que surgiu como um regimento interno da Doutrina, as finalidades previstas no artigo "g" do estatuto do Círculo Esotérico: Incentivar entre seus membros o culto cívico dos grandes benfeitores da humanidade, o respeito às leis e aos poderes constituídos do país. Três capítulos do estatuto do centro, oficializados em 1971, também dedicam linguagens às questões cívicas.
Dezenas de revistas do Círculo e livros esotéricos encontram-se arquivados ainda no presente nos arquivos do memorial Raimundo Irineu Serra. Marcando o fim dessa ligação, Mestre Irineu recebia o hino 110 de seu hinário, que diz entre outros versos:
"Aqui estou dizendo
Aqui estou cantando
Eu digo para todos
Hinos estão ensinando"
A REORGANIZAÇÃO DO FARDAMENTO E DAS ORDENS DE SERVIÇOS DE SUA DOUTRINA
Neste mesmo momento Mestre Irineu realizava as mudanças que havia sido determinadas na viagem que fez ao Maranhão, em 1957. Ordenou o fardamento azul para as sessões de concentração de 15 e 30 e o fardamento branco para os hinários oficiais. Mudou também as ordens de serviços. Como vimos anteriormente, seus seguidores eram classificados por patentes que variavam de acordo o número de estrelas. Mestre Irineu baixou todas as patentes para uma única estrela, que colocava todos em igualdade de direitos. Os homens passavam a utilizar uma só estrela no fardamento azul e branco, colocada no peito direito. Para as mulheres e moças, também houve mudanças. No fardamento branco, as moças passavam a utilizar uma palma verde no peito direito; e as mulheres utilizavam uma rosa verde. No fardamento azul, moças e mulheres utilizavam o desenho de uma estrela de Salomão, com as iniciais: C.R.F - que significa: Centro da Rainha da Floresta. Por coincidência, as mesmas iniciais do Círculo de Regeneração de Fé, nome que recebeu o primeiro centro da ayahuasca, em 1916.
Desta forma, Mestre Irineu orientado pela sua inseparável professora espiritual, procurava corrigir certos desentendimentos que aconteciam em seu grupo. "Soldados que recebiam mais estrelas queriam mandar mais do que o outro que tinha menos e assim iam se formando as intrigas e disse me disse, ele então cortou as asas de todo mundo e deixou tudo igual", comenta Francisco Grangeiro.
A INTERAÇÃO ESPIRITUAL, SOCIAL E ECONÔMICA DO GRUPO
Essas ordens de serviços na verdade eram os passos finais do Mestre na organização de sua Doutrina e na legitimação de seus trabalhos. Na prática, o perfeito ordenamento do grupo podia ser observado nas relações espirituais, sociais e econômicas.
Espiritualmente, todos se reuniam nos dias 15 e 30 e nos hinários oficiais. Integrantes do Estado Maior e da Comissão de Cura e da Equipe da Mata reuniam-se com maior freqüência. Sempre que havia um irmão necessitado, todos do Estado Maior faziam a composição da Comissão de Cura, que durante três e até nove quartas-feiras seguidas, se reuniam, tomavam Daime e trabalhavam em benefício da cura dos necessitados.
A Equipe da Mata, toda lua nova, se reunia, ia para mata e confeccionava a santa bebida em um dos rituais mais sérios e prolongados da Missão, que chegavam a exigir desses chamados Soldados da Rainha da Floresta, dietas de até 21 dias. Três deles embrenhados nas matas da selva amazônica.
Além desses trabalhos, Mestre Irineu estabeleceu como atividades paralelas de qualificação dos seus seguidores, os ensaios e os hinários rondantes. Os ensaios, como já vimos, aconteciam desde o surgimento dos hinários e da introdução do baile no ritual da Doutrina. Houve com o passar dos tempos apenas algumas adequações, atualmente esse sistema acontecia com encontro aos sábados para os rapazes e moças e aos domingos, com todo o batalhão masculino e feminino.
Hinário Rondante - era uma atividade nova e muito bem organizada. Na verdade, mais uma forma do Mestre trabalhar a relação do seu grupo. "No tempo do Mestre, cada domingo tinha hinário na casa de um dos membros da comunidade. Começava na casa mais próxima da sede e ia circulando até terminar na sede de novo. Todo domingo de duas às quatro. Era chamado Hinário Rondante", relata dona Percília Matos.
As missas de sétimo dia de falecimento, formadas com hinos recebidos pelo Mestre e hinos dos hinários de Germano Guilherme e João Pereira, também era um ritual que acontecia sempre que um irmão falecia ou completava data de falecimento. Era uma forma da irmandade relembrar do ente querido, ao mesmo tempo em que se rezava por sua alma e de todos os mortos naquela ocasião.
OS ARRAIAIS E FESTEJOS SOCIAIS
Socialmente, o grupo passava a organizar e colocar como parte da programação social do centro a comemoração das festas juninas, uma tradição nordestina que trouxe muitas alegrias para a sociedade do Alto Santo na época. Organizados por uma força conjunta, essas atividades tinham à frente o sr. Júlio Carioca e dona Lourdes Carioca. O primeiro organizava as barracas, as modalidades de cada uma e gritava os leilões de galinhas. Dona Lourdes cuidava, ao lado de dona Peregrina Gomes Serra, da preparação das galinhas e da ornamentação do local, que situava-se ao lado da residência do sr. Leôncio Gomes, onde hoje encontram-se sepultados os restos mortais do Mestre Irineu.
Mais de 20 galinhas eram bingadas e leiloadas nas noites de arraiais que contavam ainda com a apresentação do Boi Bumbá, interpretado por integrantes da missão que divertiam-se com todas as brincadeiras. Essa organização tinha objetivos financeiros de cunho administrativo, o dinheiro arrecadado, principalmente com os leilões, era repassado ao caixa de manutenção do centro.
A juventude nascida na região também encarregava-se de inesquecíveis acontecimentos na área social nessa época. Os alunos da escola Cruzeiro, formada exclusivamente por filhos integrantes da Doutrina, organizavam apresentações de teatros, enquetes musicais e a comemoração do Dia da Independência do Brasil, que contava com a participação do Mestre Irineu, que "por muitas vezes tirava o dinheiro do bolso e colaborava com as atividades mantidas na escola", comenta dona Percilia Matos.
O ESPORTE
Um campo de futebol construído na frente do Alto Santo era um dos esportes preferidos dos adolescentes da época. Formavam o time que recebeu o nome de Santa Cruz: Júlio Carioca filho - chefe da bola, Valcírio, Guilherme, Crispin - o grande craque da comunidade, Cipriano Carlos e outros. "Todas as tardes a gente se reunia depois das tarefas de casa e do roçado e íamos jogar. Vovô (referindo-se a Mestre Irineu), ficava muitas vezes olhando da janela do Alto Santo. Tinha que pegar a bola das mãos dele e entregar no final da partida", lembra Júlio Carioca Filho.
AS FESTAS
Além desses eventos, os aniversários do Mestre, a 15 de dezembro, da madrinha Peregrina, a 14 de julho, e outras datas festivas, como a data de casamento do casal, a 15 de setembro, eram festejadas geralmente com três noites de intensas festas. João Cruz, como é conhecido um grande tocador de saxofone do Acre, era um dos escolhidos por Mestre Irineu para animar as festas. Excelente dançador de valsas, as partes escolhidas pelo Mestre são relembradas até hoje: "Quando tocava aquelas mazurcas e valsas da época, o Mestre levantava-se e dia: Uma dama de ouro para dançar com um cavalheiro de prata", relembra dona Lourdes Carioca. "Em muitas ocasiões ele dava Daime para a gente dançar e todo mundo respeitava, era uma festa linda cheia de momentos que a gente não esquece nunca", diz Paulo Serra, seu filho adotivo. "Toquei e não foi nem uma e nem duas vezes na Casa do Mestre Irineu, do Leôncio durante um, dois e até três dias. É difícil encontrar alguém com tanta alegria assim", relata seu João Cruz.
O SISTEMA COOPERATIVISTA ADJUNTO
Economicamente o grupo vivia do trabalho de cultivo da terra. O arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a verdura, tudo era produzido pela força conjunta da irmandade, que organizava-se em mutirões. O Alto Santo tornou-se um dos pólos de maior produção no período que marca o final da década de 50 até o final da década de 60.
Embora a maioria dos produtos servisse para o auto sustento das dezenas de famílias instaladas na região, alguns produtores como o próprio Mestre Irineu vendiam suas safras no mercado riobranquense. A pecuária não tinha grandes efeitos econômicos. Apenas algumas cabeças de gado e o cultivo de um pequeno pasto eram preservados pelo Mestre Irineu, que mesmo assim, ajudava doando até dezenas de cabeça de gado para os irmãos necessitados financeiramente. "Era muito utilizado nos transportes de animais e produtos, para mim mesmo ele deu dez cabeças de gado que me tiraram do sufoco na época. Trabalhava com transporte e me ajudou bastante", relata Luiz Mendes do Nascimento.
"Ele gostava mesmo era dessa vida, ele brocava roçado de dez hectares e bem dizer sozinho. Começava maio e quando chegava em junho, botava uns três ou quatro para ajudar. Agora mais para o fim, que ele já estava cansado, era que botava alguém para trabalhar. Era uma união que era uma beleza. No último adjunto que o velho fez aqui, reuniu 60 homens, era 30 de março de 1969", lembrou dona Peregrina Gomes Serra, cuja ajuda já era expressiva ao seu marido. Ela além de pegar firme no cabo da enxada dentro dos roçados com o Mestre, era quem organizava o café da manhã, almoço e janta para todos que participavam da época de plantio e colheita. Dona Maria Laurinda, desde esse tempo, passou a prestar relevantes serviços ao Mestre e à madrinha Peregrina, assim como dona Percília Matos, dona Lourdes Carioca, e sua mãe dona Zulmira Gomes. "Os almoços na casa do vovô eram grandes, aquela mesa farta recebia várias etapas de comida. Eu lembro que os homens eram servidos por turmas e a comida dava que sobrava, era muita fartura, graças a Deus", afirma Júlio Carioca Filho.
Um único comércio era mantido no local. Administrado por Leôncio Gomes, vendia em suas prateleiras gêneros alimentícios que não eram produzidos na região, como o açúcar, o tabaco de fumo e outros; além dessa relação comercial, alguns seguidores do Mestre Irineu faziam uma espécie de troca de mercadorias com a vizinha colocação da Custódio Freire. Porco, galinha, patos, eram trocados por arroz, milho, roça e até comprados a dinheiro. "Sempre que a gente se via aperreado ia na Vila Custódio e trocava animais por comida, dava um jeitinho", lembra Júlio Carioca.
A MORTE DE GERMANO GUILHERME
Em 1964 se despedia do grupo liderado pelo Mestre Irineu um dos últimos seguidores pioneiros: Germano Guilherme, o primeiro a conhecer e seguir os passos do Mestre Irineu, deixava a vida material. A amizade com o Mestre Irineu era visível no tratamento entre ambos. "Eles se tratavam por mano, tudo que o Mestre queria ia conversar com ele e vice versa, eram muito amigos", relata dona Cecília Gomes.
Germano Guilherme recebeu o hinário Sois Baliza, com 53 hinos que relatam a criação da Doutrina de Irineu Serra, os caminhos e os seguimentos entre o plano espiritual e material e a afirmação suprema do cristianismo na Doutrina do Santo Daime. Abalado em sua saúde física, Germano deixava saudades e o exemplo de firmeza e lealdade aos novos seguidores.
O ACESSO E OS MEIOS DE TRANSPORTE DA COMUNIDADE
A estrada que ligava a comunidade a Rio Branco era a Alberto Torres, que passava dentro do Quartel do Exército. Um jeep da Willians era um dos únicos carros mantidos pelo sr. Leôncio, que mais tarde vai possuir também uma Rural. Histórias engraçadas de aventuras vividas nesse jeep até hoje divertem os seguidores mais antigos. Paulo Serra era o motorista. Recém chegado de Belém do Pará, onde casou-se com dona Altina Serra, ele era quem conduzia as equipes enviadas pelo Mestre, para hinários no seu Louredo e no Limoeiro. "As estradas mais pareciam varadouros, a gente sempre ficava no prego, atolado e aquilo unia mais a gente que ríamos à vontade no caminho de ida e de volta", lembra Paulo Serra.
Outro meio de transporte que auxiliou muito até a Equipe da Mata foram os burros e cavalos. "Pegávamos muito jagube e folha em áreas distantes como Limoeiro e Barro Vermelho. Regiões de acesso difícil, muitas vezes eu lembro de chagarmos com jagube e folha em lombos de cavalos e burros com três e até quatro dias dentro das matas", lembra o sr. Júlio Carioca.
A FUNDAÇÃO DO CECLU
Final da década de 60, são abertas as ligações entre o CICLU e o CECLU de Porto Velho. O sr. Regino Silva é o pioneiro seguidor de Mestre Irineu responsável pela fundação do grupo em Porto Velho. Pouco se sabe das conversações que originaram esse fato. Sabe-se que Regino Silva tornou-se amigo do Mestre Irineu e passou a levar Daime de Rio Branco para Porto Velho, onde comungava junto com amigos. Esse pequeno grupo, a exemplo do que aconteceu com a própria doutrina, cresceu e originou os trabalhos de fundação do CECLU - Centro Eclético e Correntes da Luz Universal, que estatutariamente, era subordinado ao CICLU.
É da criação desse núcleo de trabalho que Mestre Irineu conhece mais dois grandes companheiros de sua jornada espiritual. O primeiro, um senhor conhecido como Antônio Sapateiro, assim denominado pelo trabalho que exercia na fabricação de sapatos, atividade que o tornou sapateiro oficial do Mestre Irineu; o segundo, o sr. José Vieira, um homem intelectual que segundo relatos gostava muito de escrever. É esse homem que vai redigir o estatuto oficial que fundamentou a Doutrina do Santo Daime.
Em outubro de 1967, Francisca Nogueira e Virgílio Nogueira do Amaral, também se apresentam ao batalhão do Mestre Irineu, ingressando como personagens de fundamental importância no seguimento das relações entre o CICLU e o CECLU. Homem humilde nascido nas fronteiras do Acre com a Bolívia, Virgílio Nogueira logo se destacou no grupo dirigido por Regino em Porto Velho, passando a ser o elemento de confiança que transportava o Daime de Rio Branco para a cidade vizinha. Conheceu Mestre Irineu, no dia 10 de abril desse mesmo ano, "Semana Santa, quarta-feira de trevas. Cheguei lá na presença do Mestre, a minha alegria era diferente das outras, parecia que ia ser guiado por Deus, e no dia seguinte, 11 de abril, eu completava 45 anos de idade, foi a primeira vez que eu conheci o Mestre, a farda branca e o bailado da Semana Santa...", testemunhou seu Virgílio Nogueira.
Neste mesmo ano, no término do hinário da Semana Santa, seu Virgílio leva 45 litros de Daime para Porto Velho. "...Saí para a cidade para a casa do Wilson Carneiro, que o Mestre tinha recomendado a ele para me encaminhar nesse transporte até embarcar para Porto Velho", volta a relatar Virgílio Nogueira. A ligação com o grupo liderado por Regino Silva se estreitaria a partir do momento em que José Vieira passava a redigir, a pedido do Mestre Irineu, o estatuto de fundamentação do seu centro.
Esse trabalho porém, Regino Silva não conheceu em vida, em 15 de julho de 1969 ocorria seu falecimento em Rio Branco. Uma forte crise de tuberculose tirava a vida do fundador do CECLU, que passou os últimos dias de sua vida na residência do Mestre Irineu no Alto Santo. A doença, segundo relatos, Regino Silva teria adquirido na militância, "era militante político e suas atividades subversivas não referem-se ao Daime, pois seu contato com o mesmo, foi posterior a sua prisão. Consta nos relatos de contemporâneos que o Daime o salvou não só da tuberculose, como também do 'ódio' que ele havia acumulado em sua prática militante na prisão após 64..." (Fontes: Tese da antropóloga Arneide/Porto Velho - RO). Assumia a direção dos trabalhos após seu falecimento, o sr. Virgílio Nogueira do Amaral.
No início da década de 70 apresentava-se ao Mestre Irineu, no Alto Santo, seu Valcírio Genésio da Silva, seu filho único, que nascera em sua passagem por Brasiléia em 1917. Após 57 anos, o reencontro com o pai foi emocionante... "apresentei-me a meu pai por intermédio de meus filhos. Tinha uma filha que estava fazendo um curso com a Percília e lá elas se deram muito. Falaram do padrinho Irineu Serra e minha filha interessou-se por vir até aqui, no Alto Santo. Por intermédio dessa minha filha ele mandou fotos, jornais, entre outras correspondências. Assim pude fazer um pensamento e ir até a casa dele. Isso foi no dia 15 de agosto de 1970. Ao visitá-lo pela primeira vez, eu tinha 53 anos. Eu não conhecia nem o caminho. Fui indagando a um e a outro, fui chegando e perguntando por ele. Ele estava repousando, mandaram eu me sentar. Eu não soube nem fazer o meu improviso a ele, que me abraçou com muita dedicação e carinho. Fiquei muito satisfeito", relata o sr. Valcírio.
AS PALESTRAS E O RECEBIMENTO DE SEUS ÚLTIMOS HINOS
No final da década de 60 Mestre Irineu recebia seus últimos hinos, que claramente anunciavam o fim de sua trajetória nos planos terrestres. Conhecido como Hinos Novos, é uma das fases de maior luz no intercâmbio de comunicação entre o Mestre Irineu e a Divindade Suprema. Suas melodias, letras e mensagens resumem a grande árvore genealógica de ensinamentos, formadas pelos hinários pioneiros da missão. "O Mestre recebeu os hinos derradeiros direto, um atrás do outro", afirma dona Percília Matos.
É neste período também que o líder espiritual intensificou os conselhos, os ensinamentos e palestras que visavam preparar seu grupo para sua ausência. Um dia, Mestre Irineu surpreendeu a Equipe da Mata, que era liderada por Francisco Grangeiro, fazendo uma pergunta para ele, João Rodrigues Facundes e seu irmão Antônio Facundes: "Vocês ouvem cantar aí Flor das Águas, mas para vocês, quem é Flor das Águas?, perguntou o Mestre", conta Júlio Carioca.
"Compadre Chico respondeu para ele que era o Daime, a mesma resposta que deu o compadre Nica e o compadre Cancão (como são conhecidos os irmãos João Rodrigues e Antônio Facundes). Ele então deu um prazo de dez dias para eles retornarem com aquela resposta, e disse: Júlio, Flor das Águas é o oceano, vocês cantam aí:
"Flor das Águas
Da onde vem para onde vai
Vou fazer minha limpeza
No coração está meu pai
A morada do meu pai
É no coração do mundo
Aonde existe todo amor
E tem um segredo profundo
Este segredo profundo
Está em toda humanidade
Se todos se conhecerem
Aqui dentro da verdade"
Esse segredo, Júlio, continuava o Mestre - é o conhecimento de todos que estão comigo. Mas é se todos se conhecerem aqui dentro. Mas ninguém presta atenção, preferem falar da vida uns dos outros. Mas eu conheço os meus e no meu trabalho não perco nenhum", testemunha Júlio Carioca.
Em uma única vez registrada na história dessa maravilhosa Doutrina, Mestre Irineu falou em Tupi-Guarani em palestra feita no dia de uma das últimas sessões que ele participou na sede. Nessa ocasião, o Mestre falou dos princípios da Doutrina: "Daime não é para existir aonde tem guerra. O Daime é paz, é harmonia, é amor, é verdade, é justiça. Na guerra tem bala. Em outro trecho dessa palestra, que encontra-se registrada em fita cassete, ele diz: "Como é que vocês trazem seus filhos para mim rezar, se não acreditam nem no Pai Nosso que rezam, como vão acreditar em mim?
Ficava muito claro através de suas próprias palavras um certo descontentamento do líder, com algumas intrigas e conflitos existentes entre a sua irmandade. Porém, como um incansável ensinador, o Mestre Irineu doutrinava, ordenava através de sua palavra, como o homem deveria se comportar no mundo terra. Já em 1970, após ficar durante três dias em coma profundo agonizando em cima de sua cama, com alto grau de febre, "ele recebeu um hino avisando", relata o sr. Wilson Carneiro. "A gente ficava em equipes se revezando para rezar e dar assistência para ele voltar", lembra dona Lourdes Carioca.
Foi quando o Mestre Irineu recebeu o hino:
"Eu cheguei nesta casa
Eu entrei por esta porta
Eu venho dar os agradecimentos
A quem rogou por minha volta
Eu estou dentro desta casa
Aqui no meio deste salão
Estou alegre e satisfeito
Junto aqui com os meus irmãos
Ia fazendo uma viagem
Ia pensando em não voltar
Os pedidos foram tantos
Me mandaram eu voltar
Me mandaram eu voltar
Eu estou firme vou trabalhar
Ensinar os meus irmãos
Aqueles que me escutar"
Era o seu penúltimo hino. A irmandade o recebia de volta e restabelecido, porém sabiam que sua passagem estava próxima. Foi quando Mestre Irineu começou a organizar a Doutrina para a sua ausência. Deixou de ir às sessões de concentração e aos hinários oficiais, ordenando que presidisse esses trabalhos o sr. Leôncio Gomes da Silva. Era o princípio de sua preparação para mais tarde assumir os comandos da missão. Dona Peregrina, sua esposa, ainda passava pelo estágio de formação espiritual.
Outras providências iam sendo tomadas pelo Mestre Irineu que disse muitas vezes para todo o grupo: "Vou sair daqui e deixar uma doutrina pronta, sem precisar colocar nem o pingo do i", lembra Júlio Carioca.
Após a reabertura dos trabalhos em Porto Velho, que foram suspensos em 1970 por conflitos entre os dirigentes, Virgílio e Francisca Nogueira, o Mestre Irineu enviou uma equipe liderada por Leôncio Gomes e formada por Francisco Grangeiro, Júlio Carioca, Francisco Martins e Daniel Acelino Serra, com a missão de ensinar os membros do CECLU a fazer Daime. Dadas as condições precárias da BR-364 e as dificuldades financeiras para o transporte da bebida na época, Mestre Irineu determinou a esses homens, que ensinassem ao sr. Virgílio Nogueira Amaral a trabalhar com a confecção da bebida. A missão durou onze dias. Foram feitos 51 litros de Daime com a equipe do sr. Virgílio Nogueira. A despesa na época chegou a R$551,00. Claramente, Mestre Irineu planejava a continuidade dos trabalhos na região.
A ABERTURA DOS PRONTO-SOCORROS
No Alto Santo outras providências do Mestre iam desenhando o desfecho de sua trajetória final na terra. Nos locais mais diferentes, como na Colônia Cinco Mil e na casa do sr. Joaquim Baiano, o Mestre Irineu mantinha o que os irmãos chamavam de Pronto Socorro - uma unidade de trabalho que realizava encontros nas sessões de 15 e 30, em face das dificuldades que existiam de locomoção desses irmãos para o Alto Santo. O sr. Louredo, outro antigo seguidor do Mestre Irineu, também mantinha esse tipo de trabalho em sua residência no bairro Vermelho (Rio Branco). Era dever dos responsáveis e membros dessas unidades participar dos hinários oficiais na sede central do Mestre Irineu.
Em Porto Velho, após a visita da equipe de instrutores de fazer Daime, os trabalhos prosseguiam normalmente. Em comunicação por carta a Mestre Irineu, observamos a participação de José Vieira na formação da diretoria do CECLU, sigla que na construção do estatuto do CICLU, ficou subordinada aos trabalhos do Alto Santo. Dizia a carta:
"Para gestor lhe apresento o nome do irmão Virgílio, para secretário, um meu amigo que na União do Vegetal ocupou posto de relevo e que foi o redator do Estatuto daquela entidade, e com dificuldade trabalha com o nosso veículo, homem de cor parda que carrega na pele o luto pela morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para Conselheiro indico nosso irmão Valdemar de Almeida, homem culto e capaz de nos ajudar com seu trabalho, eu apenas indico as pessoas capazes, porque a indicação caberá ao senhor Imperador. Ao irmão Antônio Sapateiro que me parece não procurar responsabilidade, poderá se ele aceitar também ser indicado. Quanto a mim, não é interessante eu me apresentar, mas se Nosso Senhor Jesus Cristo quiser e o senhor determinar eu procurarei me desincumbir de qualquer função embora não julgue capaz, sabendo que não se pode fugir do fardo que ele indica para cada um que se atém ao âmbito religioso, quando vem o caso".
Nos chama atenção nessas cartas enviadas por José Vieira ao Mestre Irineu, o tamanho respeito e a linguagem culta utilizada pelo homem que destacou-se como um verdadeiro Mensageiro do CECLU. Colocou com muita sinceridade suas idéias delineando categoricamente o perfil de cada membro formador da diretoria do novo centro, porque na verdade José Vieira tinha consciência da responsabilidade que teria de ser fundamentada na filial subordinada ao Alto Santo.
A REGULAMENTAÇÃO DA DOUTRINA
José Vieira já trabalhava firme no texto que fundamentava o estatuto oficial da Doutrina. Em uma das cartas escritas por José Vieira ao Mestre Irineu, datada de 26 de novembro de 1970, ele relatou a missão que lhe fora incumbida pelo Mestre:
"Agradeço sua amável lembrança pela missiva do último dia 19, me reportando ao programa antes já esboçado, afirmo estar firme junto com nosso irmão em Cristo, na consolidação da reforma que empreende ao nosso ritualismo. Prescindindo por isso a consciência das visões me usou como instrumento na elaboração de nossos estatutos e outros meios que provavelmente se assestaram nos objetivos globais de sua plataforma, no mais diante dos rumores que faziam do nosso veículo no meio religioso, me pus a campo partindo de uma entrevista com o reverendo Padre Mário, conforme cópia do pedido que a ele fiz e que lhe enviei, daí tendo ido a presença de sua Rev. Dom João Batista Costa, Bispo prelado do Território (de Rondônia) que está ansioso para conhecer nosso estatuto mediante esboço que a ele apresentei. Em seguida, conferenciei com alguns pastores evangélicos dados que alguns crentes buscam conhecer o nosso mistério e um deles já fazer parte de nossos outros trabalhos, quase já convertido a veneração da Virgem e de seus méritos, pateando nossas concepções e princípios para a segurança ao nosso culto e registro ante a necessidade de coordenação face as divergências aos nossos fundamentos, sempre alertando contra os falsos cristos, isto é, as falsas doutrinas com aparência de verdadeiras, estes e outros pontos foram o principal tema que apresentei por escrito ao nosso Bispo prelado, o qual parece que nos apoiará juntamente com a Igreja Católica".
Esses principais trechos da carta enviada oito meses antes do falecimento do Mestre, mostravam claramente através do intelectual José Vieira, qual era a necessidade de se criar o estatuto para o centro e os principais objetivos do Mestre Irineu: "para a segurança ao nosso culto e registro ante a necessidade de coordenação, face as divergências aos nossos fundamentos". O verbo intelectual de José Vieira, grande conhecedor do pensamento do Mestre, se exprime de forma ainda mais verdadeira, quando este afirma que: "Não nos cabe apenas conhecer as grandes verdades, mas a ela imprimir a realidade positiva". Este homem, provocou com sua determinação, um dos únicos intercâmbios registrados em toda a trajetória da Doutrina do Santo Daime com a Igreja Católica e a Igreja Evangélica. Como observamos em seu texto, José Vieira buscou o apoio desses seguimentos na elaboração do estatuto, até como uma base para a afirmação da Doutrina nos planos terrestres. "José Vieira era um homem que tomava muito Daime, seu quarto era abarrotado de livros por toda parte. Para fazer esse estatuto determinado pelo Mestre, tomou mais de 5 litros de Daime", lembra Júlio Carioca.
A MORTE DE RAIMUNDO IRINEU SERRA
A presença da Igreja Católica e Evangélica na busca de conhecimentos dos trabalhos do Mestre Irineu, como citou o sr. José Vieira em carta anterior, se deu exatamente neste período. "Um dia o Mestre Irineu me chamou e disse que sua professora havia lhe dito que um dos avisos que ela lhe daria quando estivesse perto dele fazer sua passagem era a presença de um padre na sua sede", comenta Júlio Carioca.
"No final de 1970, após seu aniversário, pelos dias 17 ou 18, ele recebeu o hino Terra Fria", comenta dona Percília Matos. "Ele convocou uma reunião e esclareceu: 'Esse hino não é só para mim, é para todo mundo, todo mundo que nasce morre'", relata Wilson Carneiro.
Já na segunda quinzena de junho de 1971, logo após o festejo de São João Batista, primeiro e último hinário oficial com Mestre Irineu em vida, ao despontar de uma bela tarde, quando os raios do sol ainda castigavam os rostos daquele povo sofrido, apontava no portão do Mestre Irineu, padre Pacífico, que se fazia acompanhar de duas freiras. Meu pai, que estava presente na hora, ouviu Mestre Irineu exclamar: "Que tempo é esse minha mãe. Ele lembrava do sinal que a Virgem havia lhe advertido", conta Júlio Carioca. "Lembro-me como se fosse hoje, ele recebeu muito bem o padre e as duas freiras. Ficou conversando com o padre, enquanto comadre Peregrina e sua mãe (referindo-se a dona Lourdes Carioca), foram atender as freiras. O padre pediu para assistir a um trabalho da sua sessão. O Mestre marcou então, para o dia 14 de julho, aniversário da comadre Peregrina, que seria o trabalho de apresentação. Assim que eles saíram, ele me chamou e disse: Júlio, amanhã você vai à cidade e avise a todo mundo, que dia 14 o fardamento é branco para esta apresentação ao padre. Recebam eles com todas as honras", acrescentou.
Suas palavras finais nessa ordem de serviço ao sr. Júlio Carioca já expressavam o que estava para acontecer: "Recebam eles com todas as honras". O Mestre sabia que não estaria mais presente materialmente. Contou também a Júlio Carioca, antes de seu falecimento, que estava aprendendo com a Virgem uma das últimas lições que tinha para aprender. Que lição é essa Mestre ? - perguntou Júlio - Ele me respondeu olhando para longe com aqueles olhos pequenos: Quando eu avistar um lá no portão, Júlio, eu já saber qual assunto ele vem tratar comigo e que resposta eu devo dar. Nesse momento, parecia uma coisa, lá vinha um velhinho com sacos nas costas, capengando mesmo. Ele disse: está vendo aí, esse vem de tão longe só para me tomar a benção", contou Júlio Carioca.
No dia 05 de julho, "Como era de costume, eu fui avisá-lo que no outro dia, ia mais a Lourdes receber. Ao chegar em seu quarto perguntei como ele estava e ele disse: estou melhor meu filho. Mas como melhor se quando chego em casa ouço dizer que o senhor piorou. Ele virou-se para mim e disse; Júlio, queres a verdade, para mim não há nada bom. Ouço aí em cima um grande festejo assim como que vai chegar o Presidente da República, um Chefe de Estado. Mas não sou eu não meu filho. Quando eu sair daqui, se apegue com o sol, a lua, as estrelas, a terra, o vento, o mar, tem todos esses seres. Se não, se firme com a esposa de um amigo seu" contou Júlio Carioca.
Nesse mesmo dia, "precisamente às 19:30 horas, quando eu entrei no Alto Santo o Mestre estava deitado. Se levantou para vir me atender. Foi quando eu li toda a documentação em cartório devidamente registrada no Livro de Pessoas Jurídicas da Comarca de Rio Branco" lembrou o sr. João Rodrigues Facundes. Ao passar o visto nas documentações estatutárias do centro, Mestre Irineu, segundo relatos, disse: "pronto, dei nome a quem não tinha". Consolidava-se ali uma luta de 79 anos em que o Mestre tentava regulamentar sua missão. Era o último despacho que Mestre Irineu fez materialmente.
Na quarta-feira 06 de julho do mesmo ano, ia-se completar a terceira sessão de cura que estava sendo realizada pela Comissão a beneficio da cura do Mestre Irineu. "Ia muito mais do que nove pessoas, todos queriam rezar pelo Mestre. Na segunda sessão de cura, o Mestre havia chamado um a um perguntando quem havia visto o seu velório. Ouviu a resposta de um por um, quando ficamos eu, comadre Peregrina, comadre Maria Zacarias, Marta e seu pai, ele disse: se conformem que eu estou perto de deixar vocês", lembra dona Lourdes Carioca.
E assim aconteceu, naquela manhã sombria, por volta das nove horas, o Mestre se despedia do mundo terra. Com uma forte crise de urina, desmaiou por cima da rede quando tentava urinar. Seguro por Francisco Martins, que gritou pela presença de madrinha Peregrina, o Mestre dava seus últimos suspiros já com uma vela na mão. O clamor e a tristeza tomavam conta da região. Em pouco tempo a notícia ganhava dimensão. O radialista Mota de Oliveira, uma das últimas pessoas curadas pelas mãos de Mestre Irineu, anunciava seu falecimento nas ondas da Rádio Capital. A cidade de Rio Branco parava para ouvir a triste notícia. A irmandade que morava na capital, era tolhida pela notícia da perda. Iniciava-se nas primeiras horas daquela manhã, um dos dias mais tristes da história da Doutrina do Santo Daime.
Providências para a realização do velório foram tomadas. O corpo do Mestre ficou em sua residência até ser vestido com a farda oficial utilizada pelo grande líder. Na sede, os homens arrumavam os bancos e a mesa central para o ritual de velório. Fardados em branco, todos os irmãos receberam o corpo do Mestre Irineu, perfilados em forma de "V" que significava vitória. Seu caixão era colocado ao centro, coberto pela Bandeira Nacional, que lhe dava as honras de um Chefe de Estado. Na cidade, o governo Valério Magalhães divulgava nota de pesar ao falecimento do grande líder. Uma crônica lida na Rádio também evidenciava o triste acontecimento.
Durante o restante do dia e toda a noite de 06 para 07 de julho, foram cantados os hinários base da Doutrina por ele difundida. A emoção e o sentimento de dor e tristeza era visíveis, principalmente na execução dos hinos do hinário O Cruzeiro. O semblante de cada seguidor parecia flutuar em um fato que jamais eles esperavam que fosse acontecer naquele momento.
Ao amanhecer, após longas horas de palestras e discursos de autoridades e oradores do centro, acompanhados pela Banda da Polícia Militar, em toque fúnebre, perfilados em fileiras masculinas e femininas, o Batalhão cantando os hinos novos, seguia para a morada final escolhida pelo Mestre, bem ao lado da residência de Leôncio Gomes da Silva. Todos de grande a pequeno choravam pela perda. Dona Peregrina Gomes Serra acompanhada de sua mãe e irmãos, recebia os pêsames das autoridades, amigos e admiradores do grande líder. Sentia, mais que todos, naturalmente, a profunda perda do grande companheiro, conselheiro, amigo e esposo. Alguns como o orador Luiz Mendes do Nascimento, chegaram a desmaiar por cima do caixão fechado do Mestre Irineu que baixou no túmulo envolto à bandeira nacional. A irmandade dava adeus ao Mestre, comovida, os 79 anos de história marcavam aquele momento inesquecível. Os mistérios e encantos de uma vida dedicada à bondade e ao companheirismo; abria-se um novo capítulo na história daquele povo. O Mestre agora descansa deitado eternamente em berço esplendido, ao som do mar e à luz do céu profundo.
Fim da quinta parte