O Fundador da Doutrina do Santo Daime:

Mestre Raimundo Irineu Serra

 

Relato do Sr. Jairo da Silva Carioca

 

TERCEIRO PERÍODO - DE 1945 À 1971
A EVOLUÇÃO SISTEMÁTICA DA DOUTRINA CRISTÃ-DAIMISTA:
O APERFEIÇOAMENTO E INSTITUCIONALIZAÇÃO DE SUA LITURGIA, CERIMÔNIAS E RITUAIS


1945 - A MUDANÇA PARA O ALTO SANTO


Rodeada de uma vegetação nativa rica em seringa e madeira de lei, após duas visitas ao local que era conhecido como Colocação Espalhado, Mestre Irineu consegue fechar as negociações com as terras, que foram doadas pelo Governo do Estado, através de um projeto de assentamento executado por Guiomard dos Santos. "Guiomard dos Santos visava naquela época corrigir a saída do homem do campo para a cidade. Estava uma coisa sem dono, todo mundo abandonava a seringa, a borracha e vinha para a rua tentar uma vida melhor. Ele foi e criou esses pólos de produções, doando através da amizade que tinha com o Mestre Irineu, essa grande área de terra para ele trabalhar", relatou o sr. Luiz Mendes.
Era maio de 1945. A Segunda Guerra Mundial acabava. Valorizando a história de sua pátria, Mestre Irineu ao mudar-se para a nova morada, batizava-a, de Colocação Espalhado para Alto da Santa Cruz. Existia apenas uma casinha velha de paxiúba. A preocupação inicial do Mestre Irineu foi organizar um espaço para a realização dos trabalhos de sua missão, afinal, o hinário oficial de São João estava próximo.
A distância do grupo que deixara na Vila Ivonete era grande, porém, seu desligamento não quebrou o ritmo dos trabalhos. Embora sentissem a ausência do líder todos continuavam sua vida normal. Nas datas de encontro, como as sessões de concentração e os hinários, todos caminhavam quilômetros e quilômetros pela estrada Alberto Torres, para participarem da sessão. Exemplo disso foi a realização do primeiro hinário no Alto da Santa Cruz, que como já nos referimos anteriormente, foi novamente em louvor a São João Batista.
"O trabalho foi realizado em baixo de um laranjal. Como a mudança havia acontecido no final de maio, não houve tempo hábil para Mestre Irineu construir um local sede. Foi um trabalho inesquecível, era um dia muito frio, todo mundo pensava como ia suportar a frieza da mata naquela noite. Mas nem sentimos o tempo passar, tomamos o Daime e começamos a cantar os hinos do Mestre, sentindo aquele conforto que parecia vir de cima. E vinha mesmo, em meio a toda aquela mata, cantamos como se estivéssemos em pleno salão", relembrou dona Percilia Matos.
Presume-se que neste período Mestre Irineu tenha recebido seu hino de número sessenta: Laranjeira, marcando os trabalhos que foram realizados no laranjal, ao qual se refere anteriormente dona Percília Matos. Sabe-se que a nova etapa de trabalho na vida do grande líder foi dificultosa. Teve que reiniciar todas as plantações de arroz, milho, feijão e mandioca, trabalhando muitas vezes sozinho, dada a distância que o separava do grupo da Vila Ivonete. Incansável na missão que a divindade lhe destinava, Mestre Irineu enfrentava todas as dificuldades com determinação e coragem.

1946 - A SUSPENSÃO DOS TRABALHOS


Basicamente um ano após sua mudança para o Alto Santo, em meados de maio de 1946, Mestre Irineu seguindo orientações de sua professora espiritual, Clara, resolve suspender todos os trabalhos espirituais de sua missão. Pouco se sabe dos reais motivos que levaram Mestre Irineu a tomar essa decisão tão profunda. Entre os mais antigos seguidores, falar desse assunto é uma lembrança desagradável. Em nossas pesquisas, o silêncio prevaleceu no momento da maioria responder, e os que tiverem coragem para falar afirmaram que além das brigas entre o grupo que em sua maioria ficara na Vila Ivonete, a sogra de Mestre Irineu, dona Maria Franco, também teria sido um dos motivos da suspensão da sessão. "Uma das causadoras foi sua sogra, uma confusão formada por ela foi que levou o Mestre a fechar a sessão. Ele suspendeu os trabalhos que estiveram sempre em sua responsabilidade. Foi uma época muito difícil para todos nós", relata dona Maria Gomes, esposa de Antônio Gomes na época. A data de fechamento da sessão coincide com o período de falecimento do seu marido. Fortemente abalado em sua saúde física antes de falecer, Antônio Gomes tinha recebido um hino que anunciava esse momento que seria vivido por todos da missão: Um dos versos desse hino diz: "A sessão estando fechada, Estamos fora do poder, Estamos dentro do clamor, Para todo mundo ver". Temendo esse clamor foi que Antônio Gomes "saiu à cavalo de casa em casa, pedindo aos irmãos que se humilhassem e pedissem para o Mestre abrir a sessão", conta dona Lourdes Carioca. Na verdade, as discórdias entre a irmandade sempre foram um dos motivos mais fortes que desgostavam o Mestre Irineu. Essa atitude desqualificada que vinha sendo praticada por alguns de seu grupo, teria mesmo sido o motivo mais intenso para a atitude corajosa tomada pelo grande líder. Para quem pregava sempre a evolução, era inadmissível o fato de seus seguidores estarem se agredindo.

A ENTREGA DA FAMÍLIA GOMES


Fortemente abalado em sua saúde, a reabertura da sessão foi um dos sonhos que Antônio Gomes da Silva viu nos planos espirituais. Em agosto de 1946 ele começou a se despedir da irmandade. Em uma das visitas que o Mestre Irineu fez a ele, antes de seu falecimento, Antônio Gomes pediu que antes de fechar os olhos, o Mestre ficasse responsável pela sua família. Exatamente o que descrevia seu hino: "Eu aqui em vossas mãos eu cheguei já quase morto, eu aqui a vós me entrego junto com minha família". Aos 14 de agosto do mesmo ano ele faleceu. "O hino 'Só Eu cantei na barra' é sobre a passagem de Antônio Gomes. Ele estava muito doente: o hino fala 'A morte é muito simples, é igualmente ao nascer', quando eu ouvi eu percebi que não tinha jeito. A receita, como diz o Mestre, é a terra", relata dona Percília Matos.
Sua curta trajetória pela Doutrina ficou marcada pelo recebimento de seu hinário. Batizado atualmente como Amor Divino, o verbo de seus hinos testificam a missão pregada pelo Mestre Raimundo Irineu Serra como uma verdadeira escola universal. Um de seus hinos mais conhecidos, Preleição, fala da união, do perdão e da humildade como as fontes principais para o aperfeiçoamento do homem e sua plena felicidade. Sua morte culmina com a reabertura dos trabalhos. "Pouco depois que ele morreu foi que o Mestre abriu a sessão novamente", comenta dona Maria Gomes.
Atendendo seu pedido, o Mestre passou a observar de perto todos os seus filhos. Entre eles, dona Zulmira Gomes, Leôncio Gomes e Raimundo Gomes, já se destacavam na preservação dos ensinamentos da doutrina. Dona Zulmira e o sr. Raimundo Gomes, por exemplo, passavam a receber dois maravilhosos hinários. Leôncio Gomes havia se curado do vício do alcoolismo em trabalhos de cura realizados com a presença do senhor Daniel Pereira de Matos, conterrâneo do Mestre Irineu, que também curou-se através da doutrina do forte vício do alcoolismo. "Ele bebia muito, bebia de cair. Ficou mesmo entregue a bebida. Foi quando ele encontrou com Irineu Serra, que era conterrâneo dele, lá do Maranhão. Então Irineu Serra, como já estava estabelecido, pegou o Daniel e levou lá para o Alto Santo. Assim ele contava. Passou uns tempos lá e melhorou, ficando sem beber. Com um tempo, Daniel voltou para cá e voltou a beber. Aí, o Irineu buscou ele novamente, trazendo de volta pra o Alto Santo pela segunda vez, dessa segunda vez o Daniel ficou mais tempo por lá", relata o sr. Antônio Geraldo.

AS SESSÕES MUSICADAS


A passagem de Daniel Pereira de Matos na doutrina, porém, não se resume apenas nesse episódio de cura. Restabelecido do vício, Daniel Matos passou a se dedicar a missão. "Preto só de pele, mas por dentro um capucho muito grande", como afirma o sr. Antônio Geraldo, Daniel Matos era um homem inteligente. "De ombros largos e musculosos, conversava muito com a gente, tinha uma voz forte. Aqui ele não trabalhava no roçado e nem de cortar seringa. Ele ficava em casa estudando, gostava muito de estudar. O negócio dele era ler, trabalhar de carpinteiro e era o barbeiro do Mestre Irineu" relata o sr. Raimundo Gonçalves.
Foi no desenvolvimento de suas atividades como carpinteiro, que Daniel Pereira de Matos passou a fabricar seu próprio instrumento e compor suas músicas. "Ele só tocava músicas dele, até os instrumentos eram feitos por ele", volta a afirmar Raimundo Gonçalves. Com o tempo, Mestre Irineu passou a utilizar as valsas compostas por sua autoria, instituindo um ritual de Sessões Musicadas. "Nós tínhamos um sistema de trabalho que era o seguinte: o padrinho Irineu dava um serviço de concentração e o Daniel tinha umas teorias de fazer valsas dele. Então quando chegava numa parte do trabalho, o padrinho Irineu mandava o Daniel tocar aquelas valsas dele que eram bonitas. A gente se concentrava naquela música que ele tocava. Então era assim que o Daniel participava dos trabalhos no tempo em que ele estava com o Mestre Irineu", acrescentou o sr. Raimundo Gonçalves).

A FUNDAÇÃO DA BARQUIINHA - PRIMEIRA RAMIFICAÇÃO DA AYAHUASCA NO ESTADO DO ACRE


A amizade e o compromisso espiritual do Mestre Irineu e Daniel Pereira de Matos foram além desses horizontes. "O Mestre ia sempre visitar o Daniel, na Vila Ivonete. Quase todas as vezes que ele ia na rua, passava lá na casa dele. Eles realmente eram muito amigos. O Mestre Irineu gostava muito dele. Uma das vezes em que o Mestre Irineu foi lá, o Daniel falou para ele que tinha um bocado de gente que vinha procurá-lo para se curar de muitos males. Então, o padrinho Irineu foi e deu licença para que ele continuasse o seu trabalho. Por um bom tempo, o padrinho mandou Daime para ele ajudar o pessoal. É que ficava mais fácil, pois naquele tempo, o Daniel ainda não tinha como fazer Daime na Vila Ivonete. Ficava muito longe para o pessoal ir da Vila Ivonete ao Alto Santo, era muito difícil. Foi dessa forma que Daniel começou, até que ficou por conta própria, trabalhava com o Círculo Esotérico e fazia cura", relata Raimundo Gonçalves.
Assim surgia a primeira ramificação da ayahuasca no Estado do Acre, era fundado por Daniel Pereira de Matos o Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz, localizado na Vila Ivonete até hoje. Neste centro, Daniel Matos desenvolveu-se espiritualmente. Sua amizade com Mestre Irineu continuou viva. "O Daniel dizia que tomava Daime com o Irineu e contava sobre as visões que teve nesse período que viveu com o Mestre Irineu", relata dona Francisca Gabriel.

1948 - A CONSTRUÇÃO DO ALTO SANTO


É como um grande Pai que Mestre Irineu resolveu, em 1948, construir a casa que seria sede dos seus trabalhos espirituais. Até então, as sessões e os hinários oficiais vinham sendo realizados no Laranjal. Com tantos afilhados e filhos e a crescente chegada de novos adeptos, era hora de adequar sua missão para o número de seguidores que ela comportava e dar mais um passo na institucionalização de sua Doutrina.
Ordenou a retirada de toda madeira para a construção da casa. Raimundo Gonçalves, filho mais velho de dona Zulmira Gomes, foi o responsável por isso. "Passamos uma porção de dias nessas matas tirando a madeira que o Mestre havia pedido. Também trabalhei na construção, o Mestre estava sempre à frente de tudo, tinha muita força, colocou essas balizas do casarão praticamente só", relata seu Raimundo Gonçalves.
Com uma arquitetura semelhante as primeiras casas erguidas no território do Acre, o Alto Santo tinha quatro águas, que representam os quatro ventos cardeais. Um salão grande de entrada. Dos lados esquerdos e direitos, ficavam os quartos e os fundos, uma cozinha lembrada até os dias de hoje, pela fartura da grande mesa e dos fortes bancos de madeira construídos pelo próprio Mestre Irineu Serra. Ele fez também um gabinete, onde eram e são guardados até hoje as frasqueiras de Daime, e que naquela época serviu também como local de audiências do Mestre com seus seguidores. "Ele atendia a todo mundo naquele gabinete, passava de horas conversando e aconselhando a gente", relata o sr. Francisco Granjeiro.
A Doutrina vive a partir daqui uma fase nova de reflexões e acertos. O Mestre, neste período que vai de 1945 à 1971, implanta novas ordens de serviços, busca apoios para a legalização de seus trabalhos, recebendo uma carga grande de seguidores e novas famílias que firmam-se em sua Doutrina, proporcionando a implantação em definitivo da grande filosofia espiritual a que fora destinado. A grande casa, que mais tarde passou a ser conhecida como Alto Santo, pelas inúmeras curas que o Mestre realizou, passava a ser a sede dos trabalhos espirituais da missão.

A DOAÇÃO DE TERRAS E A IMPLANTAÇÃO DEFINITIVA DO SISTEMA ADJUNTO DE COOPERATIVISMO


É nas terras do Alto da Santa Cruz que acontece também a implantação de suas atividades com a terra, trabalho que tornou-se possível graças às inúmeras adesões dos novos seguidores, além da vinda para o local das famílias que estavam instaladas na Vila Ivonete.
Gradativamente Mestre Irineu foi trazendo as famílias que ficaram na Vila Ivonete. Doando terras para a morada dos familiares, ele implantava seu sistema espiritual e cooperativista. "Ele dizia que chegaria um tempo, que felizes seriam aqueles que tivessem um pedacinho de terra para plantar. Assim estimulava cada um que vinha chegando, a se engajar com seu trabalho", lembra Francisco Granjeiro, que chegou na missão em 1950.
A adesão de novos seguidores crescia o ritmo de seus trabalhos, ao mesmo tempo em que os seguidores mais antigos iam se despedindo do grupo. Em 1952 falecia o pioneiro João Pereira, natural de Porongaba - CE, João Pereira foi um dos primeiros seguidores da doutrina. Acompanhou com dedicação os trabalhos da missão desde 1930, recebendo, a exemplo de Germano Guilherme, Maria Damião e Antônio Gomes, um rico e instrutivo hinário que fala das três fontes nobres, um Rei e uma Rainha que veio a este mundo replantar a Santa Doutrina de Jesus Cristo.

A SEPARAÇÃO COM DONA RAIMUNDA


Em março de 1955, dona Raimunda resolve abandonar a companhia do Mestre Irineu. Este assunto é outro momento da história dessa Doutrina que poucos falam. Sabe-se que as dificuldades de convivência entre ambos se dava, principalmente, pelos problemas criados pela sogra do Mestre Irineu, dona Maria Franco. "A mãe dela se metia em tudo que o Mestre determinava, era uma perturbação na vida dele", comenta dona Percília Matos. De origem pouco conhecida, dona Raimunda era pajé de nascença e tinha grandes conhecimentos espirituais. "Era a chave de confiança do Mestre. Ele ensinou e ela aprendeu. Ela fazia chamado de vir mesmo. Ele ensinou os pontos para ela. Ela tomava conta dos homens e das mulheres", relata Francisco Grangeiro. Até que em seu livre arbítrio, Dona Raimunda resolve deixar para trás todos os anos de convivência com Mestre Irineu. "Ela foi embora para São Paulo com a mãe onde veio a falecer, ao que me parece, atropelada", relata dona Percília Matos.
Com a ausência de dona Raimunda, Irineu Serra trouxe para o Alto Santo os jovens Paulo Serra e Marta Serra. Filho do casamento entre José Francisco das Neves e dona Cecília Gomes, Paulo Serra foi batizado pelo Mestre Irineu com esse nome, em homenagem ao seu tio do Maranhão, aquele que teve participação decisiva em sua vinda para o Acre. Paulo e Marta foram batizados como filhos adotivos do Mestre Irineu e passaram a morar em sua companhia, junto com dona Percília Matos, que também passou a morar na residência oficial do Mestre. "Era ela quem copiava os hinos quando o Mestre recebia. Ficou sendo uma espécie de governanta, cuidava da casa e, na missão, passou a exercer as mesmas funções de dona Raimunda no comando feminino", relata o sr. Francisco Grangeiro.

1956 - O CASAMENTO COM MADRINHA PEREGRINA


Após três anos separado, em 1956, Mestre Irineu começou a preparação para um novo casamento. Dessa vez, seguindo as orientações de sua professora espiritual Clara, teve mais cautela na escolha de sua nova companheira. Na verdade, com 64 anos de idade, sabia que deveria escolher para sua companhia aquela que seria herdeira de toda a sua fortaleza de ensinamentos.
Desta forma, realizou os primeiros contatos com dona Zulmira Gomes, mãe de Peregrina Gomes, uma moça que na plenitude de sua juventude, se despontava como a pessoa ideal para o grande Mestre. "Foram meses de observação até ele ter a primeira conversa com dona Zulmira", relata dona Percília Matos.
Após receber a aceitação da família através de dona Zulmira Gomes, que agiu como uma intermediadora, Mestre Irineu buscou o consentimento da noiva que tinha apenas 17 anos. "Ele me perguntou se eu aceitava casar com ele e eu disse que sim. Se fosse de acordo com minha família", relata madrinha Peregrina. E assim aconteceu. Após os acertos e a preparação dos documentos, foi marcada a data de 15 de setembro do mesmo ano para a grande festa. "Eu me encontrei com ele duas ou três vezes antes do casamento", contou-me madrinha Peregrina. A irmandade foi convidada para três dias de intensas festividades, era o enlace matrimonial do Mestre. No dia 15 de setembro, após a cerimônia religiosa e civil, o casal recepcionou a irmandade no Alto Santo. Música, dança e muita comida marcaram a data inesquecível. Doravante, Peregrina Gomes passava a assinar com o sobrenome Serra. Estava unificado o amor divino que unia o casal. Mestre Irineu estava consciente de que a partir dali, começava a preparar aquela que seria a herdeira de seus ensinamentos.

A VIAGEM PARA O MARANHÃO


Com pouco mais de um ano de casado, exatamente a 13 de novembro de 1957, as saudades de seus familiares que não via a cerca de 45 anos, faz com que Mestre Irineu planeje uma viagem para o Maranhão. Antes de partir, tomou as medidas necessárias na organização espiritual de seus trabalhos. Com um grupo experiente, deixou na administração José Francisco das Neves e Raimundo Gomes da Silva, tio de dona Peregrina Serra.
A viagem para o Maranhão foi toda feita de barco "no litoral do Maranhão. Um braço de mar muito bravo e tinha hora que o barco ficava cheio de água e ele sentado na proa do barco", relata dona Peregrina Serra. No reencontro com sua família, em São Vicente de Férrer, Mestre Irineu não encontrou mais sua mãe com vida. José Serra, irmão do Mestre, foi quem deu as informações sobre os familiares. Sabe-se que no Maranhão, "ele não falou do Daime, disse apenas do trabalho que tinha com um grupo no Acre, quando decidiu me trazer e mais seus dois sobrinhos: João Serra e Zequinha", comenta Daniel Acelino Serra, que também embarcou na viagem de volta ao Acre com Mestre Irineu.
No Alto Santo a falta de notícias, dado ao precário sistema de informações da época, começava a preocupar seus seguidores. Alguns, liderados por Raimundo Gomes, chegaram até a realizar "sessões de procura" (trabalhos em que os irmãos procuravam resolver problemas de ordens pessoais ou do grupo) com o objetivo de saber se o Mestre estava ou não vivo. A notícia de seu desaparecimento chegou a ser comentada entre a irmandade, causando até certos desentendimentos entre os irmãos. Afinal, eram três meses sem notícia alguma. Dona Peregrina Serra, sua esposa, porém, mantinha-se com a esperança. "Era o maior desejo dele fazer essa viagem de barco. Foram 40 dias se alimentando com mujangué (ovos batidos) para agüentar a força da miração", comentou ela.
Seus sobrinhos também falaram que "ele fez a viagem de volta toda mirando na proa do barco", afirma Daniel Serra. "Foi nessa viagem que ele recebeu as instruções de fardamento", acrescenta dona Peregrina Gomes Serra. Ela teve uma missão árdua na administração dos trabalhos na ausência do seu marido. As plantações e as colheitas lideradas por Mestre Irineu tiveram ritmo normal em sua ausência, dona Peregrina Gomes Serra cedo estava no roçado comandando e ajudando no cultivo dos produtos que garantiam a sustentação do grupo.
No dia 13 de fevereiro de 1958, o Mestre desembarcava no porto acreano. Foram mais três dias de intensas festas no Alto Santo. A irmandade aflita aliviava-se com a presença física do Mestre, que fazia questão de apresentar um a um os sobrinhos que havia trazido do Maranhão. A integração de Daniel, Zequinha e João Serra foi rápida, logo logo eles estavam adaptados aos trabalhos do tio e à convivência com seu grupo de seguidores. "Chegando aqui nós ficamos encantados com toda aquela recepção, os dias de festa. Parecia que vinha chegando uma grande autoridade", relata Daniel Acelino Serra.

A CHEGADA DA FAMÍLIA CARIOCA NA DOUTRINA


Em outubro desse mesmo ano se apresentava ao comando do Mestre Irineu a família Carioca. Por intermédio de dona Olívia Facundes e o sr. Antônio Facundes (que também ingressaram nesta mesma data), dona Lourdes Carioca, desenganada pelos médicos que lhe atestaram sofrer de apendicite aguda, chegou nas mãos do Mestre Irineu. "O trabalho era uma sessão de concentração. Ao tomar Daime dado pelas mãos do Mestre, tive minha primeira miração. Neste noite, eu vi que não tinha nenhuma apendicite aguda, e que estava mesmo era grávida de uma menina", relatou dona Lourdes Carioca. Observamos através de seu depoimento que o Daime revelava segredos que hoje são possíveis na medicina moderna, através de um exame de ultra-sonografia. Dona Lourdes saiu daquela sessão consciente de que não estava doente e que carregava no ventre a gestação de uma menina, que nasceu no dia 03 de abril de 1959 e chama-se Marise Carioca. "Costumo dizer que se nunca mais tomasse Daime, daria o mesmo valor que dou ao Mestre e sua Doutrina", acrescentou dona Lourdes Carioca.
Em casa, sonhando, Julio Chaves avistava uma luz. "Eu mi vi debaixo de uma laranjeira, onde via uma porta aberta para o firmamento. Ao ouvir o gemido de minha velha (referindo-se a dona Lourdes), seguia viagem até encontrá-la em um hospital no firmamento. Uma equipe de médicos muito bonita cuidava dela que, ao me ver, dizia que estava grávida", conta o sr. Júlio Carioca. "Quando acordei, pensei que ela tivesse morrido", acrescentou.
A rigorosa dieta que os médicos receitaram para minha mãe foi abandonada: "Passei a comer de tudo. O Mestre disse que daquele dia em diante eu estava curada". Na sétima vez que dona Lourdes Carioca tomou Daime, foi que Júlio Carioca começou a participar da sessão: "Em minha primeira miração, confirmei o que havia visto em sonho. Vi que sua mãe tinha sido curada e que estava dentro de uma verdade muito séria", relata ele.
Sempre que um novato participava dos trabalhos, Mestre Irineu na presença de todos o entrevistava no final da sessão. Com o sr. Júlio Carioca não foi diferente: "quando ele me perguntou o que tinha achado da viagem, disse que tinha visto dois caminhos: o do bem e o do mal e o resultado. Tinha visto também os resultados do homem que é falso à mulher. Ele como sábio disse que 'tudo quanto eu estava dizendo, todos que estavam ali já tinham visto, só que quando iam embora, ao passar pelo portão, deixavam o que viu e levavam o que trouxe'. Pedi para que ele repetisse e ele disse: 'Isto mesmo Julio, deixam o que viu e levam o que trouxe'", relata Júlio Carioca.
Ficava claro nas palavras de Mestre Irineu que sua Doutrina apresentava um sistema de vida para cada seguidor. Quando o Mestre se refere ao portão de sua casa para dentro, explica em outras palavras, a sistematização de seus ensinamentos, a criação de seu próprio mundo, de suas leis e do universo representado pelo amor e a humildade. Ele sempre lutou para que seus seguidores apresentassem no cotidiano o que viam nos momentos de miração. É o que narra o hino Palmatória, do hinário Cruzeiro que diz: "Porque todos não cumprem, Com o dever e obrigação, Conhecer essa verdade, Para chamar meu irmão". Sua filosofia é de irmandade, da convivência em grupo, da coletividade, a interação social, a comunidade.
Essa preleção inicial ficou gravada na memória do sr. Júlio Carioca que passou a seguir regularmente os trabalhos junto com toda a família, na época, formada apenas pelos meus irmãos: João Batista, Júlio Filho, Fátima Carioca e Francisco de Assis.
Com a crescente chegada de novos seguidores Mestre Irineu construiu uma puxada de palha (local aberto, feito em madeira natural e coberto de palhas) ao lado do Alto Santo, para abrigar os adeptos nas noites de longo trabalho. Sensíveis mudanças já haviam sido feitas no fardamento oficial. Os homens usavam palmas no paletó e fitas coloridas no ombro direito. Mesmo tendo recebido ordens para implantar o novo fardamento, como vimos anteriormente, o Mestre Irineu esperou um pouco mais para organizar melhor seu grupo.


1958 - A INTRODUÇÃO DE INTRUMENTOS NO RITUAL


Daniel Pereira de Matos, que havia seguido seu caminho espiritual, deixou aberto na escola do Mestre Irineu o dom da música, a harmonia dos acordes musicais que executava com esplendor e maestria. A chegada da Família Carioca na sessão marca a introdução de instrumentos no ritual sagrado instituído pelo Mestre Irineu.
Embora houvesse alguns tocadores de violão no Alto Santo, quem estimulou a idéia de solo aos hinos foi o sr. Júlio Chaves Carioca. "Comprei um bandolim para a Lourdes, o Mestre disse que um cavaquinho seria mais fácil para aprender. Comprei um cavaquinho, depois com um tempo, o Mestre pediu para comprar um violão para ela, e me deu naquela época 8 mil réis para comprar um violão para sua esposa, comadre Peregrina", relata Júlio Carioca. Foi a partir da compra desses violões que formaram-se os primeiros grupos musicais no Alto Santo. "O Mestre ensaiava o ritmo conosco, batendo seu maracá ao nosso lado. Ele mandava que nós nos concentrássemos e invocássemos o Mestre Daniel Pereira de Matos para vir ensinar a gente a tocar. Com pouco víamos os locais dourados aonde tínhamos que bater nas cordas, dito ninguém acredita", conta dona Lourdes Carioca, que formou o primeiro trio de tocadores, ao lado de dona Peregrina Serra, e de seu esposo Júlio Carioca.
Depois outros seguidores foram se interessando pelo aprendizado da música:


- Raimundo Gonçalves (banjo)
- Maria Laurinda;
- Jovita Gomes;
- Adália Grangeiro;
- Tolentino (todos com violão);
- Enoque (bandolim);
- João Serra, sobrinho do Mestre (pandeiro), formavam novos grupos de músicos da Doutrina.


Sabe-se que desses seguidores formaram-se como primeiros tocadores: Júlio Carioca, Lourdes Carioca, Peregrina Serra e Maria Zacarias (violão), Raimundo Gonçalves (banjo) e João Serra (pandeiro). O violão, o banjo, o bandolim e o pandeiro passavam a ser os instrumentos originais do trabalho. Não poderíamos deixar de registrar nesse contexto, a passagem na sessão de Francisco, o Chiquinho Cego, como era conhecido devido a cegueira adquirida aos sete anos de idade. Foi ele quem iniciou as aulas de violão aos irmãos Júlio Carioca Filho, João Batista Carioca e José Carlos Carioca, que mais tarde firmam-se como músicos oficiais da Doutrina.

Fim da quarta parte