O Fundador da Doutrina do Santo Daime:
Mestre Raimundo Irineu Serra
Relato do Sr. Jairo da Silva Carioca
SEGUNDO PERÍODO - DE 1931 À 1945
1931 - A IMPLANTAÇÃO DA DOUTRINA DO SANTO DAIME
O período é marcado pela fase de decadência do mercado da borracha na Amazônia, que perdia concorrência para a Malásia (cujo semente nativa foi levada do Brasil). Centenas de famílias nordestinas começavam a abandonar os seringais em busca de uma vida melhor na cidade. Rio Branco começava a sofrer a desorganização no processo de ocupação das terras urbanas.
Ao dar baixa na Guarda Territorial, Irineu Serra tentou morar em uma região invadida próximo da área reservada ao Quartel do Exército, conhecido na época como 4ª Companhia. Não obtendo êxitos, participou junto com um grupo de seringueiros da posse das terras do seringalista Barros, bem próximo do bairro atualmente chamado de Vila Ivonete em Rio Branco, como relata o sr. Luiz Mendes: "Por força de seus companheiros, arranjaram para ele uma colônia na Vila Ivonete. Parece que o Mestre foi um dos primeiros moradores". De imediato, ao tomar posse, Irineu Serra tratou de organizar seu lote de terras, procurando plantar e torná-la produtiva. Construiu uma casinha de barro, semelhante às de sua terra natal, passando a viver no local junto com os outros seringueiros.
É nessa região que após vinte anos de inteira adaptação, auto disciplina e o conhecimento com os profundos segredos da natureza, Irineu Serra passará a organizar e formar um grupo de trabalho espiritual, implantando a Doutrina do Santo Daime. Sua primeira medida nesse sentido, foi nacionalizar o nome da bebida até então conhecida como ayahuasca para Santo Daime. Daime que provém do verbo divino Dar. Dai-me força, dai-me amor, dai-me o pão do Criador. "Ele dizia que deveríamos pedir a quem pudesse nos dar, por isso colocou o nome dessa bebida de Daime, através dela, pedimos a Deus tudo quanto é bom para nós e nossos semelhantes", comenta o sr. Júlio Carioca.
1933 - A CHEGADA DOS PRIMEIROS SEGUIDORES
Em 1933 Irineu Serra começava a receber seus primeiros seguidores. Após Germano Guilherme, que já tomava Daime com Irineu Serra quando ambos serviram na Guarda Territorial, José das Neves, como ele próprio testemunhou, foi o segundo seguidor: "Foi no dia 26 de maio de 1931 que comecei este trabalho com ele". Fazendo uma junção de outros nomes que foram resgatados em nosso trabalho de pesquisa, é possível apresentarmos o seguinte quadro de seguidores que se apresentaram ao Mestre Irineu entre 1931 à 1945:
PRIMEIRA GERAÇÃO DE SEGUIDORES - DE 1931 À 1945
Germano Guilherme - 1928
José Francisco das Neves - 26 de maio de 1931
João Pereira - 1931 (data prevista)
Pedro Marques - 1931 (data prevista)
Maria Damião - 1931 (data prevista)
José Afrânio - 1931 (data prevista)
José Capanga - 1931 (data prevista)
Antônio Tordo
Maria Franco - 1932 (data prevista)
Dona Raimunda - 1933
Francisco Martins - 1933
Antônio Gomes - 1938 (data prevista)
Maria Gomes - 1938
Zulmira Gomes - 1938
Sebastião Gonçalves - 1938
Guilherme Gomes - 1938
OBSERVAÇÃO: As datas previstas são apresentadas de acordo com o cruzamento de informações resgatadas junto aos seguidores mais antigos. As datas confirmadas estão atestadas através de fatos concretos.
Todos esses seguidores vieram para o Acre, certamente expulsos do nordeste pela forte seca que aflorava a região e atraídos pelo mercado da borracha. Com exceção de José das Neves, que era comerciante, os demais eram ex-seringueiros e agricultores, viviam do árduo trabalho com a terra.
Em 1933, após passar alguns anos sozinho, Irineu Serra casou-se com Dona Raimunda, uma senhora que, segundo testemunhos, tinha origens indígenas e passou a ser "a pessoa de confiança do Mestre, tudo que ele ensinou ela aprendeu", relata o sr. Francisco Grangeiro. Comenta-se, no entanto, que este casamento não teria sido aprovado pela professora espiritual de Irineu Serra, Clara. Segundo dona Percília Matos, "a Rainha não concordou com o casamento e sentenciou o Mestre a passar vinte anos de sofrimento", detalhou. Sabe-se que desde o princípio de sua convivência com dona Raimunda, Irineu Serra enfrentou problemas principalmente no relacionamento com sua sogra, dona Maria Franco.
PROCESSO DE ORGANIZAÇÃO ESPIRITUAL E SOCIAL
A convivência em grupo já existia desde os primeiros movimentos de organização para a ocupação das terras na região ainda hoje conhecida como Vila Ivonete. Irineu Serra começava a se destacar como líder entre os demais agricultores e suas famílias, com bases para iniciar a organização espiritual de seus trabalhos, a sistematização da doutrina Cristã-Daimista: sua liturgia (cerimônias e rituais) e as relações sociais inerentes e necessárias à missão (movimento de evangelização, busca e conversão da humanidade e o prêmio da saúde e bem estar).
SESSÕES DE CURA E CONCENTRAÇÃO
A primeira determinação nesse processo foi a instituição dos trabalhos de concentração e cura, primeiros rituais implantados na formação doutrinária de Irineu Serra. Às quartas-feiras, o grupo se reunia com o objetivo de cura, sempre que algum irmão necessitava de uma assistência espiritual para a cura de enfermidades ou doenças, todos reunidos, em trabalho de concentração de uma hora e meia, buscavam na luz do Daime, a cura para o necessitado. Aos sábados a irmandade se reunia para o trabalho de concentração simples, com ritual semelhante, uma hora e meia de concentração a benefício de cada um, individualmente; e de todos, coletivamente. "Ele recomendava em suas palestras que nós rogássemos também pela humanidade, afastar esses terrores e rebeldias que estamos acostumados a ver", relata dona Percilia Matos.
Sentados ao redor de uma mesa, em forma de quadrilátero, a Cruz de Caravaca - primeiro símbolo da doutrina que já fazia parte do ritual - era colocada ao centro da mesa presidida pelo líder Irineu Serra. Os primeiros trabalhos espirituais "eram realizados na casa do Mestre, aquele grupinho, então ele ficou dando assistência para a gente", volta a relembrar dona Percilia Matos. Procurando sempre estar reunido com seus seguidores, esse princípio foi difícil. Além de algumas dificuldades financeiras, Irineu Serra enfrentava perseguições na implantação de sua doutrina. A exemplo do que aconteceu com o Centro de Regeneração e Fé, criado em Brasiléia, em 1917, a distribuição do Santo Daime enfrentava o preconceito social e religioso. "Nessa época era pouquinha gente, muito perseguido pela Justiça. Era aquele sacrifício. Mas tudo a gente venceu e hoje vivemos numa situação favorável", disse dona Cecília Gomes. As dificuldades financeiras eram socorridas entre a irmandade, especialmente o sr. José das Neves, "eles repartiam feiras, José das Neves tornou-se seu grande amigo desde ai", acrescenta dona Percília Matos.
A palavra nesse princípio era portanto o grande instrumento educador. "Ele dava muitas palestras, conversava, aconselhava a gente e dizia como ele queria que fosse o trabalho que a Virgem ensinava para ele", comenta dona Maria Gomes. "O nosso trabalho começou como uma aula. Ajunta quatro, cinco meninos, faz uma sala de aula e vai ensinando e vai chegando mais crianças. Chegam os ensinos a cada dia que passa, o professor vai indicando como é, o aluno vai aprendendo a carta do abc", relatou o sr. José das Neves.
A SOCIALIZAÇÃO ESPIRITUALIZADA
Por outro lado, os plantios e as colheitas iam enriquecendo e valorizando ainda mais a convivência em grupo, que passava a ser organizada pelo líder Irineu Serra. "Ele tornou-se o primeiro líder comunitário que teve em Rio Branco. Lá ele era tudo, era médico, advogado, fazia casamento, enfim, era a quem recorríamos em todos os instantes de alegria e tristeza", disse dona Percilia Matos. Homens e mulheres passavam a se reunir na força do trabalho. O arroz, o milho, o feijão, a mandioca foram produtos que logo passaram a ser consumidos pelo grupo, que tornou-se auto sustentável. Começava a se estabelecer em sua linha de trabalho uma forma de cooperativa adjunta.
Ao mesmo tempo em que produziam para sua sobrevivência material, o grupo evoluía espiritualmente. Os trabalhos nas quartas e sábados eram imprescindíveis. As curas e os benefícios de saúde realizados na doutrina tornavam o nome de Irineu Serra cada vez mais conhecido em Rio Branco. Embora ainda não existisse um fardamento padronizado, nas vestimentas dos seguidores o branco já era uma das cores predominantes, talvez até pela forte influência de cultura nordestina.
1934 - A PRIMEIRA FORMAÇÃO DE COMANDO E O RECEBIMENTO DOS PRIMEIROS HINOS DA DOUTRINA DO SANTO DAIME
Com o crescimento do número de adeptos em seus trabalhos, era preciso dar os primeiros passos no ordenamento do grupo. O líder ordenou, portanto, a primeira formação de comando: os mais antigos assumiam as primeiras posições nas fileiras compostas seqüencialmente pela ordem de chegada na sessão. Presidida por Irineu Serra, depois dele, no lado dos homens, vinham: Germano Guilherme e José das Neves, João Pereira e outros que iniciavam a formação das fileiras do lado masculino. Na ala feminina, dona Raimunda, esposa do Mestre, e dona Percilia Matos, eram quem encabeçavam a formação das fileiras, seguidas de Maria Damião, Maria Franco, Maria Gomes e outras. Automaticamente, surgiam também as primeiras divisões hierárquicas no trabalho: o comandante masculino Irineu Serra, e o feminino dona Raimunda.
No mesmo ano surgiu o recebimento dos primeiros hinos recebidos pelos seguidores. "Em 34 tinha Lua Branca, Tuperci e Ripi, nesse tempo não tinha farda", relembra dona Percilia Matos. Embora tivesse esses hinos, "na verdade foi Germano Guilherme quem primeiro recebeu e cantou seu hino na doutrina, daí o porque de seu hinário ser executado antes do hinário do Mestre Irineu até hoje", relata dona Cecília Gomes (ex-esposa de Germano Guilherme). Neste ano, portanto, foi apresentado o primeiro hino cantado na doutrina, pelo seguidor Germano Guilherme:
"Divino Pai Eterno
O seu mundo veio e formou
E habitou, e habitou
Com toda a criação
Com toda a criação
Com o vosso amor
Deixou e levou
E tão distante ficou
Olhando a sua criação
Com o vosso brilho do amor
Com o vosso brilho
Com o vosso brilho do amor"
Este hino firmava mais que nunca a criação universal destinada a Irineu Serra, que começava a formação do seu mundo, a verbalização do caráter sagrado que o mesmo desejava implantar através de sua doutrina. Após a apresentação do hino de Germano Guilherme, Irineu Serra apresentava à irmandade, vinte e dois anos depois, o hino que fora recebido por ele, em 1912, no Peru: Lua Branca. A música e a letra continuavam viva em sua memória, numa comprovação divina do poder e do valor da doutrina que passava a ser implantada. "Foi quando ficamos conhecendo o seu hino, Lua Branca, que ele tinha recebido no Peru quando a Virgem lhe entregou a Missão", comenta dona Percilia.
OS PRIMEIROS HINOS
Seus primeiros hinos invocam a presença de seres como a Virgem da Conceição, Jesus Cristo e Deus Onipotente, apresentando as relações de seus trabalhos com a natureza e os seres de origens indígenas e talvez africanas: Tuperci, Jaci, Ripi laiá, Formosa, Tarumim, Equiôr, Papai Paxá, Barum, Marum, Begê e Princesa Soloína. Percebemos naturalmente a narração de sua história nos cânticos de seu hinário. Os seres indígenas, anteriormente citados, revelavam a experiência vivida por Irineu Serra no período de adaptação e evolução a que nos referimos anteriormente, onde o líder aprendeu a conviver com os segredos e mistérios da natureza, trabalhando com as plantas e aprendendo seus efeitos curativos, dando seqüência a partir daí ao seu aprendizado divinal. Depois, vamos observar ainda com referência ao seu hinário, sua invocação aos seres dominadores do universo: o sol, a lua, as estrelas, a terra, o vento e o mar, que são revelados na verbalização de seus hinos, como elementos sagrados do amor eterno:
"Eu quero ser
Filho do meu Pai
Da minha mãe com os meus irmãos
Que me acompanham amar a Ele
De todo o meu coração
Seguindo nessa estrada
Com a verdade na mão
O amor eterno
Eu devo consagrar
A lua e as estrelas
A terra e o mar
O sol lá nas alturas
Com sua luz de cristal"
Era a abertura de uma linha de comunicação entre o material e o espiritual. Os hinos passavam a ser um fio condutor dos trabalhos, um verbo vivo da palavra divina recebida através do homem em contato com o plano astral. Tornavam-se também, além de condutores da palavra de Cristo, um adjetivo disciplinador, estimulativo e educador da memória e do pensamento humano, uma fonte inesgotável de conhecimentos e aprofundamentos dos segredos e mistérios da natureza.
OS HINÁRIOS
Mais tarde, em 1935, quando João Pereira e Maria Damião também passaram a receber seus primeiros hinos, a Rainha ordena a Irineu Serra estabelecer um novo ritual: a execução dos Hinários - ritual que tem como base os cânticos e louvores aos Seres Divinos da Sagrada Missão. Hinários são mensagens recebidas em verso do plano astral, a liturgia da doutrina do Santo Daime formada por um conjunto de hinos. Os primeiros hinários a se formarem de 1936 a 1947, foram:
O CRUZEIRO - do Mestre Raimundo Irineu Serra;
SOIS BALIZA - de Germano Guilherme;
06 DE JANEIRO - de João Pereira;
O MENSAGEIRO - de Maria Damião;
AMOR DIVINO - de Antônio Gomes da Silva.
Em 1935, com o recebimento dos primeiros hinos da doutrina, foi realizado o primeiro hinário. "Era 23 de junho de 1935, o Mestre organizou duas frentes de trabalho. Os homens foram tirar lenha para fogueira, as mulheres, preparar a ornamentação e uma grande ceia que o Mestre pediu para fazer no intervalo. Quando foi lá pelas seis horas da tarde, na Casa de dona Maria Damião, nós nos reunimos, rezamos um terço, tomamos Daime e fomos cantar até meia noite. Só tinha oito hinos! Um de Germano Guilherme, quatro do Mestre, dois de João Pereira e um de Maria Damião. Eram repetidos nessa mesma ordem por toda a noite. Quando foi meia noite ele deu um intervalo, já estava preparada a ceia numa grande mesa, quando ele mandou que nós cantássemos por três vezes aquele hino:
Papai do Céu do Coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Graças a mamãe
Mamãe do Céu do coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Louvado Seja Deus
Esse hino foi cantado de forma tão bonita, que nunca mais me esqueci... até hoje... chora emocionada dona Percília Matos. Após a meia- noite o grupo voltou a cantar a seqüência de hinos determinada até o amanhecer do dia. Era dia de São João Batista. Depois Irineu Serra seguindo orientações de sua professora Clara ordenou as novas datas para a realização dos hinários, formando o primeiro calendário de hinários oficiais da doutrina:
PRIMEIRO CALENDÁRIO OFICIAL DE TRABALHOS
05 para 06 de janeiro Dia dos Santos Reis
18 de março Dia de São José
Semana Santa Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo
23 para 24 de junho São João Batista
01 para 02 de novembro Dia de todos os Santos e Finados
07 para 08 de dezembro Nossa Senhora da Conceição
21 para 25 de dezembro Natal
Além dessas datas, era normal a realização das sessões de concentração aos sábados e das sessões de cura nas quartas-feiras. As datas evidenciam os primeiros traços do cristianismo na Missão de Irineu Serra. Paralelo a esses ensinamentos que passavam a ser recebidos do Plano Astral, edificando a comunicação entre o grupo e o mundo espiritual, Irineu Serra ensinava seus seguidores a rezarem. A reza surgia nos fundamentos da doutrina como um dos elementos de fundamental importância para o indivíduo: "Ele cansou de nos dizer e ainda hoje nos diz espiritualmente, que devemos rezar para alcançarmos os nossos objetivos sem embaraços e nos livrarmos dos males que existem no mundo terra", disse dona Maria Gomes.
No Pai-Nosso ensinado pelo líder espiritual Irineu Serra, ao invés de dizermos :"venha a nós o vosso reino", como ensina a Igreja há milênios, ele ordenou com orientações de sua professora espiritual, Clara, que fosse dito: "vamos nós ao vosso reino" - porque o reino é divino e assim como viemos, vamos ao trono de nosso pai.
"A minha mãe me acompanhou
Mandou Eu ensinar
Os que forem filhos dela
Aprender ao menos a rezar"
"Vamos todos trabalhar
Que nós vamos se apresentar
Perante ao nosso Pai
E os trabalhos a Ele mostrar"
Com essa filosofia, Irineu Serra passava a ensinar seus seguidores a trabalharem materialmente para se apresentarem ao Pai Divinal. Consagrou as seis horas da manhã, o pino de meio dia e as seis horas da tarde como sagradas. Era o princípio de sua doutrinação a seu povo, sem a utilização do pensamento de inteira dominação, Mestre Irineu trabalhava através da sagrada bebida a consciência, que mostra através dos hinos nossos deveres no mundo terra.
As curas e a humildade do líder frente ao grupo, iam engrandecendo seu próprio espírito. O líder passava a ser referenciado nos hinos que eram recebidos por Germano Guilherme, João Pereira e Maria Damião como Mestre:
"Jesus Cristo está na terra
Foi Deus do Céu foi quem mandou
Para ele vir nos ensinar
A doutrina do salvador"
Evoluía seu trabalho. Gradativamente crescia seu grupo, e conseqüentemente, os preconceitos das religiões e da sociedade. Mestre Irineu começava a se preocupar em legalizar sua sessão e mostrar aos dirigentes eclesiásticos que sua missão em nada ameaçava as religiões tradicionais.
1936 - A INTRODUÇÃO DO BAILE, OS ENSAIOS E O FARDAMENTO
Em 1936, duas medidas marcavam uma nova fase de trabalho com o grupo: primeiro, a introdução do bailado no ritual de hinários, em seguida, a oficialização do primeiro fardamento da Doutrina, uma medida de organização, que ensaiava os passos iniciais do Mestre Irineu na institucionalização de seus trabalhos.
O BAILE
Foi introduzido como uma dança de passos laterais para a direita e a esquerda em ritmos de marcha, valsa e mazurca. Homens e mulheres, em forma de quadrilátero, executam os passos rítmicos, com a batida do maracá - primeiro instrumento de percussão da doutrina, feito com latas de 500g., esferas e cabos de madeira, naturalmente originado das tribos indígenas -, que serve para dar ritmo ao bailado (conjunto de passos do baile).
Sua introdução nos trabalhos de hinários, como afirmam os mais antigos, foi uma das tarefas mais difíceis encontradas pelo Mestre Irineu. "Eu mesma muitas vezes não tinha paciência para ensaiar e saía da forma. Uma vez eu me irritei tanto, que joguei o maracá na mesa e disse que não bailava mais", lembra dona Percília Matos.
Desde então surgiram os ensaios na doutrina. Mestre Irineu passou a reunir o grupo nos fins de semana, e de forma paciente, "ele ia ensinando de um por um a bailar, muitas vezes pegando na mão e mostrando os passos que tinham que ser dados de acordo como a Rainha pedia para ele". Ao que se sabe, foram quase seis meses de intensos ensaios, até que pudesse ser executada a forma ideal de bailado instruído pelo Mestre Irineu.
O FARDAMENTO
Neste mesmo momento, Mestre Irineu em conjunto com dona Raimunda e dona Percília Matos, determinava a confecção do primeiro fardamento oficial da doutrina: "As primeiras fardas eram umas túnicas de mescla, uns dólmãs. Tinha um chapéu branco na cabeça. Eram duas fardas: fardamento oficial (túnica de mescla e calça branca) e fardamento azul (calça de mescla e túnica branca)", relatou o sr. Raimundo Gomes.
Essas primeiras fardas, segundo dona Percília Matos, foram confeccionadas entre a própria comunidade. "Para fazer foi uma festa, a gente se reunia umas nas casas das outras e íamos fazendo. Nessa época eu já costurava para fora. Todo mundo queria vestir a farda da Doutrina", relatou dona Percília Matos.
A farda dava uma nova identidade ao grupo do Mestre Irineu. Em todos os trabalhos considerados oficiais o grupo vestia a farda branca (oficial), e nas sessões de concentração vestia o fardamento azul. Vamos observar com o passar dos tempos, o aperfeiçoamento do fardamento oficial da Doutrina, que evoluiu em conjunto com outros pensamentos firmados pelo Mestre.
A NOVA ORDEM DE COMANDO
Ainda em 1936, Mestre Irineu seguindo orientações de sua professora espiritual, Clara, determinava também uma nova ordem de comando ao seu grupo, criando um elemento disciplinar, semelhante ao de um quartel, com patentes divididas hierarquicamente, através de estrelas:
MÓDULO DE HIERARQUIA:
SEIS ESTRELAS: GENERAL
CINCO ESTRELAS: TENENTE CORONEL
TRÊS ESTRELAS: TENENTE
DUAS ESTRELAS: CABO
UMA ESTRELA: SOLDADO RASO
Eram considerados como soldados rasos os irmãos que eram recém chegados na missão. Mais uma vez observamos em suas ordens de comando a valorização que Mestre Irineu dava aos irmãos considerados mais antigos. Dentro dessa hierarquia, sabe-se que apenas Mestre Irineu utilizava a patente de seis estrelas, era o General.
1938 - A CHEGADA DA FAMÍLIA GOMES
1938. O Brasil ainda vivia o regime ditador de Getúlio Vargas. No Acre, embarcações ainda traziam famílias inteiras de nordestinos que fugiam da seca em busca de uma melhor vida na região. "Numa dessas embarcações, relatou dona Zulmira Gomes, papai nos trouxe para cá. Sofremos muito na viagem de navio até aqui, mas chegamos com fé em Deus. Aqui, com uns tempos, papai estava muito doente, sentia uma perturbação no juízo muito forte e eu já estava cansada de tanto correr para aqui e para acolá atrás de uma cura para ele. Compadre Zé das Neves me perguntou se eu não conhecia a sessão de um negro alto que curava na Vila Ivonete. Disse que não. Ele insistiu até que me convenceu a ir até lá. Me apresentei ao Mestre, ele olhou o estado de papai e marcou para a próxima quarta-feira o início do trabalho de cura para ele. Mais ele já saiu de lá melhor (sorriu) e com três sessões de cura ele ficou bonzinho. Aí ele foi e disse que nunca mais abandonaria aquele trabalho", relatou dona Zulmira Gomes.
Dessa forma, a família Gomes se apresentava à sessão de Raimundo Irineu Serra. Essa história dona Zulmira Gomes gostava muito de contar. Às vezes, sempre que ia visitá-la no Alto Santo, me impressionava a sua capacidade de memória. Com uma idade bastante avançada e bastante cansada da rotina sofrida vivida até aquela época, dona Zulmira não se cansava de falar do passado. Com um galho seco na mão (que usava para espantar os mosquitos), sempre que algum novato chegava no Alto Santo, lá estava ela relatando os inesquecíveis momentos vividos ao lado do Mestre.
Ela relatava o fim do primeiro ciclo de formação da doutrina. O Mestre Irineu, que já dava os primeiros passos na institucionalização de seus trabalhos, contava com um considerado grupo de seguidores. Da nova família, além de Antônio Gomes da Silva, o patriarca, os seus filhos Leôncio Gomes, Raimundo Gomes, Adália Gomes, José Gomes e dona Zulmira Gomes também passaram a freqüentar a sessão. Dona Zulmira, casada com o senhor Sebastião Gonçalves, levou à missão seus filhos Raimundo Gonçalves, João Gomes, Benedita Gomes, Eloísa Gomes e Peregrina Gomes. Essa família fortificava a edificação da doutrina, como o próprio Antônio Gomes, que passou a receber um rico e instrutivo hinário, onde relata: "O Mestre trabalhava, se achava quase sozinho, pediu a Jesus Cristo que abrisse o seu caminho".
A EQUIPE DA MATA
Além dos rituais de concentração e cura, os hinários oficiais, as ordens de serviço e o fardamento, sabe-se que existia na organização do chamado Serviço da Mata, um responsável, que a princípio foi o sr. José Francisco das Neves e, posteriormente, o sr. Manoel Dantas. Estes homens, em todo ciclo de lua nova, adentravam nas matas virgens da Amazônia em busca das plantas para a confecção do Santo Daime. Formaram adjunto a João Pereira, Francisco Martins, Antônio Gomes, Guilherme Gomes, Antônio Roldão, Pedro Marques, Antônio Capanga, José Afrânio e o próprio Mestre Irineu, a primeira equipe da mata da Doutrina do Santo Daime.
AS METODOLOGIAS DE APERFEIÇOAMENTO
Como metodologias de aperfeiçoamento desse primeiro ciclo doutrinário, os ensaios e a primeira formação do Estado Maior, foram trabalhos desenvolvidos pelo Mestre Irineu, para a interdisciplina do grupo.
O ESTADO MAIOR - "Na linguagem espiritual, significava a reunião de pessoas graduadas, capazes de transmitir conforto a quem precisa nas sessões e hinários. Tinham que ser pessoas efetivas, que estavam sempre prontas quando o Mestre os chamava. Lembro-me de dois grupos que foram formados: um antes dele sair da Vila Ivonete, outro antes de falecer. Essas pessoas eram graduadas por ele nos hinários de São João e Natal. Ele escolhia e incluía a pessoa no quadro de estado maior". Ainda segundo dona Percilia Matos, formavam o Estado Maior da Doutrina, até 1940:
MEMBROS DO ESTADO MAIOR FORMADO ENTRE 1931 À 1945
1. Germano Guilherme - chegou na missão em 1938;
2. José Francisco das Neves - chegou na missão em 1931;
3. João Pereira - chegou na missão em 1931;
4. Maria Damião - chegou na missão em 1931;
5. Dona Raimunda (esposa do Mestre) - chegou na missão em 1933;
6. Percília Matos - professora, chegou na missão em 1934;
7. Antônio Gomes da Silva - chegou na missão em 1938;
8. Maria Gomes - chegou na missão em 1938.
A DESPEDIDA DE MARIA DAMIÃO
No dia 02 de abril de 1942, Mestre Irineu e seu grupo se despediam de dona Maria Marques Vieira, que carinhosamente era chamada de Maria Damião. Os mais antigos contam que com a morte de seu pai, o senhor Damião Marques, em 1935, Maria Damião enfrentou a árdua missão de criar sete irmãos. Ela dedicava-se, além da doutrina, exclusivamente ao trabalho com a terra. Plantava, roçava e colhia o pão de cada dia que ajudou a criar seus irmãos", relata dona Percília Matos, de quem foi grande amiga. Espiritualmente, Maria Damião recebeu um dos mais belos hinários da Doutrina, hoje batizado como "Mensageiro", composto de 49 hinos. Seus hinos verbalizam em sua totalidade as palavras do Mestre Irineu. É desse hinário a origem da palavra pátria na Doutrina. Maria Damião, através de seus hinos, nos fala do amor à Pátria - terra onde nascemos, e em outras passagens projetou histórias que aconteceriam no futuro, como as divisões do grupo em 1974 e 1981. Em 1942, quando a marinha japonesa foi derrotada, os alemãs e italianos expulsos do norte da África, na Segunda Guerra Mundial, Maria Damião anunciava através de seus hinos: "novas revoluções com os estrangeiros". Seu hinário descreve também a figura de um Chefe Estrangeiro, ser espiritual misterioso, que poucos na Doutrina conhecem seu significado e origens. "Retratando essa passagem, o Mestre recebeu o hino "Choro Muito". Ninguém sabia que ela estava doente. Com três dias que saiu esse hino, chegou a notícia que ela estava agonizando. Ela adoeceu repentinamente e morreu com 32 anos. Maria Damião também fala de sua passagem para a vida espiritual em seu último hino, que recebeu o nome de despedida:
"A tua casinha está pronta
Caminhos abertos
Jardins de flores
A ti oferecem
Jesus Cristo salvador
E a Rainha da Floresta
Se vós ver que eu mereço
Receba ó mãe honesta
Nas minhas ouças escutei
Um grande festejo
Os meus irmãos chegando
E o meu corpo se liquidando
Corrigi meu pensamento
Pedi perdão a meu pai
Para eu poder seguir
A minha feliz viagem"
A vida seguia nos trabalhos da missão implantada pelo Mestre Irineu. Suas amizades ampliavam-se, principalmente no cenário político. Mestre Irineu conheceu um dos maiores políticos que o Estado do Acre já teve, senador Guiomard dos Santos, como também o Cel. Fonteneli de Castro, Jorge Kalume, Wanderley Dantas e outros, que dedicaram à sua pessoa e ao seu trabalho, o carinho e a atenção merecidos.
Com o crescimento do grupo que o cercava, a ampliação de suas atividades tanto materiais quanto espirituais passava a ser uma necessidade. Em 1945, Mestre Irineu começa a preparar sua saída da Vila Ivonete. O local começava a ser influenciado pelo inchamento populacional que a cidade de Rio Branco sofria. Com a decadência do mercado da borracha, mais famílias de seringueiros e agricultores deixavam a vida no campo para arriscar a sorte na capital. A Rainha ordena a Mestre Irineu a mudança de sede dos trabalhos da doutrina.
Fim da terceira parte