O Fundador da Doutrina do Santo Daime:
Mestre Raimundo Irineu Serra
Relato do Sr. Jairo da Silva Carioca
PRIMEIRO PERÍODO - DE 1912 A 1931
A DESTINAÇÃO MATERIAL - PROCESSOS DE AUTO DISCIPLINA E EVOLUÇÃO DO GRANDE MESTRE
Agora Irineu Serra não estava mais leigo ao que a divindade havia lhe destinado. Começava uma nova fase baseada em um processo de auto disciplina e evolução no projeto divino em si desencadeado. Como sabia que agora a natureza seria sua eterna parceira de aprendizagem, o próximo passo era "conhecer o poder da floresta e Deus amar", como ele próprio explica em seu hinário.
Já adaptado na região, alinhava-se às leis da natureza, os segredos e as utilidades das plantas, seus efeitos curativos, enfim, era importante aprender tudo o que pudesse evoluí-lo dentro do projeto espiritual recebido. O temperamento forte do negro Irineu Serra abria espaço para a serenidade e o amor aos elementos sagrados: Sol, Lua, Estrela, a Terra, o Vento e o Mar. É a verdadeira alquimia revelada na ayahuasca.
Esse ciclo de grandes intensidades presume-se ter-se iniciado por volta de 1913, quando Irineu Serra afastou-se dos seus primos no Peru. Na curta convivência com os Índios da região e as mirações com Pizango, considerado "o espírito da ayahuasca", ele aprendeu a trabalhar com a confecção da ayahuasca e a identificar o cipó jagube (banisteriopsis caapi) e a folha chacrona (psychotria viridis) nas matas selvagens da Amazônia. Irineu Serra passou a observar sempre os ciclos lunares, que determinavam a estação certa para a colheita e o preparo do chá. Observamos a partir daí a parceria permanente de Irineu Serra com a natureza.
As regras que iam se criando naturalmente eram invioláveis. "Um dia, comentou Júlio Carioca, o Mestre me contou que tentou facilitar a batida do jagube usando um martelo. Me disse que foi duramente advertido pela Rainha, sentiu durante todo o dia fortes dores de cabeça, porque não era permitido pela Rainha a utilização de outros instrumentos de trabalho que não fossem naturais como a marreta feita de madeira. Hoje a gente vê até máquinas sendo usadas para triturar o cipó", comentou.
Em 1916, Irineu Serra voltava para Brasiléia. Neste município, conheceu a senhora Rosa Amorim, com quem tem seu único filho, o senhor Valcírio Genésio da Silva, em 20 de janeiro de 1917. "Naquela época tudo era muito difícil, até para se transportar de um lado para o outro tinha que ser nos chamados varejões. Quando eu nasci, em 20 de janeiro de 1917, meu pai trabalhava como seringueiro" relatou o sr. Valcírio Genésio. Segundo ele, da união de Irineu Serra com sua mãe, ainda nasceu uma menina que viveu apenas um ano e oito meses de idade. Em Brasiléia, que nesta época ainda chamava-se Brasília, Irineu Serra encontra novamente Antônio e André Costa. "Eram bons amigos e Antônio Costa foi escolhido pelo papai para ser meu padrinho", acrescentou Valcírio.
O PRIMEIRO CENTRO DA AYAHUASCA
Pesquisas realizadas pelo professor antropólogo Clodomir Monteiro da Universidade Federal do Acre - UFAC, registra nesse reencontro de Irineu Serra com seus conterrâneos, Antônio Costa e André Costa, a organização do primeiro centro da ayahuasca que se tem notícia. Instalado em Brasiléia, chamava-se Círculo de Regeneração e Fé - CFR, e teria sido fundado pelos irmãos Costa logo após a separação deles com Irineu Serra, que entre 1913 e 1916, teria passado também em Sena Madureira, outro município do estado do Acre.
Irineu Serra chegou a participar dos trabalhos organizados por Antônio Costa e André Costa, mas este teria saído da organização espiritual devido às perseguições que a ayahuasca já enfrentava naquela época. "Ele saiu devido a perseguição que era muito grande" relata dona Percilia Matos, referindo-se a policiais e chefes eclesiásticos do município de Brasiléia, que tinha como religião predominante o catolicismo. A saída de Irineu Serra da organização dos trabalhos ligados a ayahuasca neste centro culminou com sua separação de dona Rosa Amorim, que se deu "porque mamãe não concordava com a linha espiritual seguida por papai", relatou o sr. Valcírio Genésio. Tem-se notícias de que o centro foi fechado logo que Irineu Serra saiu.
O TRABALHO DE IRINEU SERRA NA COMISSÃO DE LIMITES
Por volta de 1918, Irineu Serra era selecionado para participar como encarregado do cofre onde eram guardados os objetos de valores dos oficiais da Comissão de Limites que demarcaria as fronteiras do então território do Acre com os países Peru e Bolívia. Era a sua volta às matas amazônicas e um novo ciclo de aprendizagem e evolução no seu processo de disciplina e conhecimentos dos segredos e mistérios das matas. Tudo parecia conspirar com sua pré-destinação. Agora ele ajudava na demarcação das fronteiras do Estado, que mais tarde seria conhecido no mundo inteiro através da missão que ele implantaria. Nos contatos que teve com as tribos indígenas da região, Irineu Serra aprendeu a falar Tupi-Guarani e aperfeiçoou seus conhecimentos com os segredos de cura. "O Mestre me falou muito dessa Comissão, pessoas sérias e dedicadas. Ele começou a trabalhar nesta comissão chegando a conquistar uma confiança tão grande, que se tornou o tesoureiro", relata o sr. Luiz Mendes.
SUA PASSAGEM PELA GUARDA TERRITORIAL
Em 1928, "ele serviu junto com Germano Guilherme na antiga Guarda Territorial, lá eles se juntaram e passaram a ser irmãos", conta dona Cecília Gomes, ex-esposa de Germano Guilherme. Após 14 anos, Germano Guilherme, que havia visto Irineu Serra pela primeira vez quando este passou por Brasiléia em 1912, voltava a se reencontrar com o maranhense, tornando-se com o passar dos tempos seu primeiro seguidor. Ele me disse que nas horas de folga da guarda, eles iam para dentro das matas tomar ayahuasca", acrescenta dona Cecília Gomes. "Em Rio Branco ele sentou praça na polícia. Durante um certo tempo foi soldado, com muito destaque foi promovido a cabo e logo depois deu baixa", relata o sr. Luiz Mendes.
Na verdade, a baixa na carreira de guarda era uma ordem de sua professora espiritual Clara, que naquele momento o chamava para o cumprimento de sua missão espiritual. Era hora de assumir o comando de um batalhão de patentes universais: O Batalhão da Rainha da Floresta.
Fim da segunda parte