O Fundador da Doutrina do Santo Daime:
Mestre Raimundo Irineu Serra
Relato do Sr. Jairo da Silva Carioca
A DESTINAÇÃO ESPIRITUAL
Segundo relatos, Mestre Irineu foi um homem que valorizou muito a história de cada um. "Ele dizia que assim como ele foi destinado, cada um de nós também era, procurava sempre deixar claro que fazíamos parte de uma criação divina que veio se evoluindo através dos tempos", diz dona Percília Matos. "Um dia, acrescenta Júlio Carioca, ele me falou sobre o que estava cumprindo na terra e me disse que estamos aqui obedecendo a uma determinação do Pai, pagando ou dando continuidade a uma vida passada".
O Mestre procurava explicar a existência do que os Incas falaram anteriormente: O Plano Superior, que os hinários nos mostram como Plano Astral. Nesse plano, habitam os espíritos enviados à terra para cumprirem a vida de acordo o merecimento de cada um. É mais ou menos o que a doutrina kardecista explica como carma. Através desse pensamento, o Mestre mostrava a relação de intercâmbio existente entre o que caracterizamos como Plano Material e o Plano Astral, o que fica muito bem esclarecido, quando acompanhamos o desenvolvimento de sua vida.
O NASCIMENTO
Em 15 de dezembro de 1892, nascia em São Vicente de Férrer, no Maranhão, o menino que chamaria-se Raimundo Irineu Serra. Seus pais, Sanches Serra e Joana Assunção Serra, eram oriundos de família humilde, descendentes de escravos que viviam do trabalho de cultivo da terra.
"O Mestre realmente tinha descendência escrava. Tanto de pai quanto de mãe. Os avós dele foram escravos, vieram para o Brasil e se situaram no município de São Vicente de Férrer, estado do Maranhão", relata o sr. João Rodrigues (Nica). Irineu Serra era o primogênito da família que formou-se ainda dos irmãos: Dico, Verônica, Maria e Nhá Dica, a caçula.
"Ali prevalecia o catolicismo. Havia uma igreja dominicana de grossas paredes pintadas em branco, mas que vista de perto, pareciam ondular de furta cor, tamanha a arte de seus construtores que ergueram-na, certamente, para as famílias dos fazendeiros senhores de escravos - à revelia dos pobres pretos importados da África". (Eduardo Beyer)
O jovem Irineu Serra foi o único da família a seguir os traços africanos, tanto fisicamente, quanto na preservação de alguns costumes da raça. "Uma briga de rapazes num tambor-de-criolo fez com que Raimundo Irineu Serra deixasse a terra onde nasceu e ganhasse o mundo em direção a São Luiz, a capital. Quando foi dez, onze horas da noite, pegaram um barulho aÍ começaram a brigar, botaram todo mundo para correr e inventaram de pegar um facão e cortar tudo quanto era punho de rede do dono da casa, derrubaram porta e tudo. Ele foi para essa festa, mas nessa época os filhos que não tinham pai eram criados pelos tios (maternos). O Irineu foi fugido da mãe dele combinado com Cassimiro, primo dele que era do mesmo tamanho". (Beyer)
Essa índole forte de Irineu Serra foi confirmado por ele próprio mais tarde. Disse ao sr. Júlio Carioca, "que todas as vezes que praticava uma danação ou malcriação com os mais velhos, quando ia dormir, era duramente castigado por uma senhora em sonho, que o castigava em um local tipo um paio de arroz, até se redimir dos pecados que cometera", certamente já era a auto doutrinação de quem veio à terra pré-destinado, como afirmam os ensinamentos recebidos por um de seus maiores seguidores, o sr. Antônio Gomes da Silva: "Desde o seu nascimento, que ele trouxe o seu valor".
Uma outra versão, relatada por seguidores como o sr. Luiz Mendes do Nascimento, fala da saída de Irineu Serra de sua terra natal devido a um prematuro casamento que ele estava prestes a realizar com uma prima sua. Nesta versão, seu tio Paulo teve fundamental importância em sua vinda para a Amazônia. Teria sido dele a recomendação para Irineu Serra dar uma volta ao mundo antes de pensar em casar-se. "Sabe Raimundo, o homem para se casar deve primeiro dar uma volta ao mundo. Quando voltar sabe quanto custa 1 Kg de sal, 1 Kg de açúcar, já sabe quanto custa uma anágua para mulher. Aí dá para o homem casar" relata o sr. Francisco Grangeiro.
"Foi então que no dia seguinte ele viu um navio alistando gente para vir para o Amazonas" acrescentou o sr. Francisco Grangeiro. Irineu Serra deixava, portanto, sua terra natal aos vinte anos de idade, deixando sua família e toda a tradição da cidade onde morava, aonde eram fluentes os festejos com as procissões do senhor Morto na Sexta-feira Santa, e a de São Vicente de Férrer, padroeiro do município, que tinha festa celebrada sempre em luar de verão. Paulo Serra e Raimunda Castro Serra, seus tios por parte de pai, também eram seus padrinhos. Irineu Serra nesta época trabalhava com gado e ganhava 500 réis, dinheiro que utilizou na viagem de vinda para São Luís.
De lá, em 1912, Irineu Serra foi de navio até Belém do Pará, onde trabalhou como jardineiro para conseguir dinheiro e seguir viagem até Manaus. Na capital amazônica, juntou-se a um grupo de nordestinos que vinham para o Acre, território que sofria forte migração nordestina, impulsionada pela forte seca que castigava o nordeste deste 1877, além da crescente exploração da borracha.
Essa trajetória ele também narra em seu hinário Cruzeiro quando diz: Equiôr, Equiôr, Equiôr, Equiôr que me chamaram, eu vim beirando a terra, eu vim beirando o mar.
Em 1912, quando pisou pela primeira vez nos solos acreanos, seu objetivo passou ser o encontro com seus conterrâneos e primos: Antônio Costa e André Costa, de quem tinha notícia estarem no Acre. No território, surgiram naquele momento as primeiras mudanças sociais. Eram instaladas as primeiras estruturas administrativas e formadas as classes de servidores públicos de nível médio.
As dificuldades eram grandes e ofereciam aos imigrantes uma vida quase errante, onde a luta pela sobrevivência era o que determinava a atividade do momento. De Rio Branco ele segue viagem para Brasiléia (naquela época chamada Brasília), onde tinha notícias de estarem conterrâneos seus, os irmãos Antônio Costa e André Costa. Neste ano, em sua passagem por Brasiléia, Irineu Serra foi visto por Germano Guilherme, que mais tarde seria o primeiro seguidor da missão ainda desconhecida pelo jovem maranhense. Irineu Serra chamava atenção por onde passava, pelo seu porte físico e sua altura de 1,98 m.
Sua caminhada inicial já atingia os seringais do Peru, onde reencontrou seus conterrâneos Antônio Costa e André Costa. Não há relatos que testemunhem mais detalhadamente como aconteceu esse reencontro, na verdade sabe-se que foi muito questionado: O que fazia Irineu Serra tão longe de sua terra natal?
A resposta veio com o rápido contato com a bebida que nessa época era conhecida como ayahuasca. "Ficaram morando juntos. Antônio Costa não era seringueiro. Explorava um negócio de regatão, comprava e vendia borracha. Ele lhe deu a notícia sobre caboclos do Peru que bebiam ayahuasca" relata o sr. Luiz Mendes. "E foi Antônio Costa que lhe deu a ayahuasca, ele e o irmão convidaram o Mestre para tomar", acrescentou o sr. Francisco Grangeiro. "O Mestre foi convidado por Antônio Costa a conhecer um caboclo de nome Pisango, que era um caboclo peruano, descendente dos Incas. Era Pisango, por assim dizer, um caboclo que sabia aonde as andorinhas moravam", também afirma o sr. João Rodrigues (Nica). Ao receber o convite para conhecer a bebida, segundo relatos, o Mestre disse: "Eu vou, se for uma coisa boa eu levo para o meu país".
Nesta época, a bebida era utilizada para orientar os índios na caça e na pesca e para divertir os brancos nas noites de luar. Mas a bebida já exercia função de culto, como descreveu o sr. Valcírio Genésio, filho único do Mestre Irineu: "Eles se organizavam em malocas e cultuavam as beberagens da ayahuasca em seus rituais. Batiam tambores, dançavam em círculo, era uma grande festa".
Até esse momento, apenas duas raças conheciam o trabalho com a ayahuasca: o Índio e o Branco, através de Antônio Costa e André Costa. Com o conhecimento de Irineu Serra, que passou a tomar a bebida indígena, era formada a composição étnica das raças formadoras da população brasileira: o Índio, o branco e o negro. União de raças visíveis nos princípios da doutrina que seria formada.
Foi na terceira experiência de Irineu Serra com a ayahuasca que aconteceram os primeiros contatos com a espiritualidade: "Ele armou a rede de modo que a vista dava acesso à lua. Em uma noite clara, muito bonita, quando ele começou a mirar, olhou e veio a lua se aproximando até ficar bem perto dele. Ela perguntou para ele:
- Tu tens coragem de me chamar de Satanás? Irineu Serra respondeu:
- Ave Maria minha senhora, de jeito nenhum!
- Você acha que alguém já viu o que você está vendo agora? Aí ele vacilou pensando que estava vendo o que os outros já tinham visto.
A Virgem então continuou falando:
- Você está enganado. O que estás vendo nunca ninguém viu. Só tu. Agora me diz o que achas que eu sou?
O Mestre respondeu:
- Vós sois uma Deusa Universal", relata o sr. Luiz Mendes.
"Nessa primeira miração essa senhora se apresentou identificada como Clara e pediu que ele cantasse o primeiro hino da Doutrina lhe apresentado naquele momento", relata dona Percília Matos.
"Deus te salve ó Lua Branca
Da Luz tão prateada
Tu sois minha protetora
De Deus tu sois estimada
Ó mãe divina, do coração
Lá nas alturas onde estás minha mãe
Lá no céu, dai-me o perdão
Das flores do meu país
Tu sois a mais delicada
De todo o meu coração
Tu sois de Deus estimada
Tu sois a flor mais bela
Aonde Deus pôs a mão
Tu sois minha advogada
Ó virgem da Conceição
Estrela do Universo
Que me parece um jardim
Assim como sois brilhante
Quero que brilhes a mim
Era a abertura dos trabalhos espirituais para o jovem Irineu Serra. Naquele momento ele descobria que os objetivos da bebida iam muito mais além do que os simples efeitos com que era utilizada na região. Clara, que segundo relatos do Mestre Irineu, era a mesma senhora que o disciplinava em sonho, o submeteu a uma rigorosa dieta: "muito bem, agora tu vais se submeter a uma dieta para receber o que eu tenho para te dar, vai passar sete dias se alimentando apenas de macaxeira insossa e chá, sem o direito sequer de ver um rabo de saia (ditado popular que quer dizer: não manter nenhum tipo de relação com mulheres)", relata o sr. Francisco Grangeiro. Irineu Serra comentou o que havia se submetido ao primo Antônio Costa e se embrenhou ainda mais nas matas dos seringais peruanos para cumprir o que havia sido determinado.
Ele próprio relatou em palestras com seus seguidores que no terceiro dia de dieta já ouvia vozes e tinha visões do além e imagens de caboclos na mata. No sétimo dia lhe foi relevada a missão ao qual está pré-destinado:
"Clara, agora através da Rainha da Floresta, disse que tinha algo a lhe entregar. O Mestre respondeu que se fosse algo para o engrandecimento de seu país, ele aceitava. E assim, lhe foi revelada a Missão Juramidã. Ele pediu para que lhe fizesse um dos melhores curadores do mundo. Ela respondeu que ele não podia ganhar dinheiro com aquilo. Ele pediu que ela associasse tudo que tivesse a ver com cura nessa bebida. Ele recebeu e aí foi trabalhar para ir adquirindo. Se aperfeiçoando, recebendo cada dia poderes que é preciso ter", relata o sr. Luiz Mendes.
Essa passagem também é explicada pelo sr. Sebastião Jaccoud:
"Sua própria vinda é ordenada pela Mãe Divina para a colheita do que ficou plantado lá atrás, reunindo o rebanho que ficou esfacelado na época de Jesus Cristo".
Afinal, não foi por acaso que o jovem Irineu Serra saiu de sua terra natal, deixando para trás sua família e todas as tradições da região, vindo até o reencontro com seus conterrâneos Antonio Costa e André Costa, conhecendo posteriormente a bebida ayahuasca. Seus sonhos com uma senhora que o disciplinava, a aparição de Clara que lhe entregara uma Missão, acreditamos que toda essa trajetória seguida pelo Mestre Irineu era pré-destinada. Sua vida tem seguimento com um processo de auto disciplina e evolução, o que caracterizamos como destinação material.
Fim da primeira parte